Descrição do produto
Radclyffe Hall
Editora Record
508 páginas
16 x 23 cm
Herdeira de uma familia tradicional e batizada com nome de homem por impulso do pai, Stephen é uma "invertida", discriminada por seus gestos e sua aparência masculinos. Expulsa de casa, viaja pela Europa até encontrar no front da Primeira Gerra outras mulheres iguais a ela. Acaba se envolvendo com uma moça e convive com mulheres mais liberadas em Paris, personagens inspiradas nas artistas que a autora conheceu nos célebres salões promovidos por Djuna Barnes e Natalie Barney.
Publicado pela primeira vez em 1928, O poco da solidão foi inicialmente considerado obsceno e proibido na Inglaterra, vindo a ser liberado apenas vinte anos mais tarde. A polêmica, no entanto, serviu para despertar a atenção do público para a questão do lesbianismo e para torná-lo um clássico.
Crítica de Cilmara Bedaque e Vange Leonel no blog Fazendo Estrelas
O livro foi lançado em 1928 e causou um enorme alvoroço em toda Europa e América. Foi proibido na Inglaterra, decisão que provocou uma crescente onda de lutas pela liberdade de expressão nos segmentos mais libertários. Banido das prateleiras, tornou-se um succès de scandale. Cópias passavam de mão em mão e eram contrabandeadas de Paris ou Berlim. O livro virou um cult lésbico que atravessou décadas como referência obrigatória para as garotas que gostam de garotas.
A personagem central e narradora é Stephen, uma jovem herdeira inglesa que, cedo descobre suas inclinações sáficas. Adulta, vai percebendo o quão difícil é ser respeitada pela sociedade inglesa do começo do século. É doce perceber a ingenuidade de Stephen, sempre esperando ser aceita apesar de vestir-se como homem, de trabalhar e ter seu próprio dinheiro e de querer casar com uma mulher.
O babado era muito forte para o gosto daquela sociedade pós-vitoriana. O romance apresentava uma lésbica como heroína e tema central. Os moralistas ficaram boquiabertos, achando que o livro lançava um olhar favorável sobre o lesbianismo, o que foi muito engraçado, pois as pessoas “do meio” achavam a personagem muito negativa e complexada. A luta por aceitação da personagem Stephen – e a própria luta de Hall contra a proibição do livro – tinha um caráter panfletário quase pré-militância que irritava tanto os carolas quanto os de espírito anárquico ou libertário.
Outros eram mais pragmáticos, como Virginia Woolf que, convencida pela amante Vita Sackville-West, manifestou publicamente seu apoio a Radclyffe Hall. Apesar de não considerar o livro de grande valor artístico, Virginia defendia com ardor e por princípio o direito à livre expressão. O fato é que O poço da solidão é desses livros que cruzam territórios, avançam fronteiras apresentando ao mundo “careta” a intimidade de um personagem gay de maneira direta e crua. Tipo o seriado “The L World” hoje em dia.
A vida de Stephen é bem parecida com a da própria autora, Radclyffe Hall. Ela também vestia-se com roupas masculinas, monóculo, e acreditava que no dia em que o casamento entre pessoas do mesmo sexo fosse oficializado, todo o estigma de imoralidade desapareceria dos ombros dos invertidos. Ela era lésbica, mas conservadora. Gostava de ser chamada de John, desprezava a aura de promiscuidade que cercava o ambiente gay da época e acreditava em casamentos indissolúveis, como o dela e de sua esposa lady Una Troubridge. Com o tempo, foi se aproximando dos queers, dos gauches e da turma de Natalie Barney, (retratada no livro como Valérie Seymour) em Paris, depois que percebeu que a sociedade careta e oficial não a engolia mesmo.
A grande novidade de O poço da solidão foi ter trazido à tona as primeiras discussões sobre os direitos civis dos homossexuais. Hall e sua personagem Stephen lutam para serem aceitos e incluídos na sociedade. Já com mais de 80 anos, O poço da solidão não é um dos 10 melhores livros de todos os tempos, como Orlando de Virginia Woolf, mas citando a própria Virgínia, “há muitas coisas lindas no livro de miss Radclyffe Hall”.
O poço junto com Orlando e The ladie’s almanack de Djuna Barnes, todos lançados no mesmo ano, formam a Santíssima Trindade da literatura lésbica de 1928. Depois disso as meninas nunca mais foram as mesmas...
Sobre a autora
Marguerite Radclyffe Hall nasceu em Bournemouth, Inglaterra, em 1880, filha de um pai rico e desinteressado na família e uma mãe que se separou dele e não prestou mais qualquer atenção à filha. Cresceu solitária e teve uma educação nos melhores colégios, primeiro em Londres, depois na Alemanha.
Hall era uma lésbica que se descrevia como “invertida congênita”, termo que pegou da obra de Havelock Ellis e outros sexologistas do final do século 19. Envolveu-se com uma série de mulheres durante sua juventude, mas as perdeu para o casamento, como relata em O poço da solidão.
Em 1907, Hall conheceu Mabel Batten, uma cantora amadora de 51 anos, casada, com filhos e netos. As duas se apaixonaram e, após a morte do marido, foram viver juntas. Foi Mabel quem deu a Hall o apelido de John, que esta usou até o fim da vida.
Em 1915, Hall se apaixonou pela prima de Mabel, Una Troubridge (1887-1963), uma escultora casada com um almirante e mãe de uma filha pequena. Mabel morreu no ano seguinte e em 1917 Radclyffe Hall e Una Troubridge passaram a morar juntas, até a morte de Hall em 1943, de câncer.
Apesar de toda a nobreza de caráter descrita em sua obra, Radclyffe Hall não se comportou muito maravilhosamente durante seu longo casamento, tendo em 1934 se apaixonado pela russa Evguenia Souline, com quem manteve um relacionamento tórrido. Ao longo dos anos, envolveu-se com outras mulheres, inclusive, possivelmente, a cantora de blues Ethel Waters.
O poço da solidão é sua obra mais famosa e a única em que aborda abertamente a homossexualidade.
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