No bosque da noite

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Djuna Barnes
Códex Editora
200 páginas

Djuna Barnes foi uma das frequentadoras do salão literário de Natalie Barney em Paris, tendo feito parte da elite de intelectuais de vanguarda que morava na capital francesa no início do século 20. Essa obra é ao mesmo tempo um desabafo pelo amor que não deu certo pela lindíssima Thelma Wood e um experimento com a linguagem modernista.

No bosque da noite

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Djuna Barnes
Códex Editora
200 páginas
14 x 21 cm

Obra-prima da escritora americana Djuna Barnes, No bosque da noite tornou-se um livro cultuado por diversos escritores logo após seu lançamento em 1936. Já no prefácio, o editor e poeta T. S. Eliot destacava a grande realização de um estilo, a beleza das frases, o brilho do espírito e da caracterização, e uma qualidade de horror e perdição muito proximamente ligada à da tragédia elisabetana. Outros autores fizeram parte desse coro, como James Joyce, Graham Greene e Dylan Thomas.
Barnes conta, neste livro, a história do tumultuoso amor entre Nora Flood e a jovem e excêntrica Robin Vote. Mas para isso a autora retrata de forma quase que dramática a vida de uma sociedade em decadência e que viu sua identidade aos poucos se esboroar.


Crítica publicada por Rodrigo Gurgel na Storm Magazine

A floresta noturna de Djuna Barnes

Superamos a angústia, quando necessário, passo a passo. Todas as dores psíquicas exigem uma atenção demorada. Até mesmo, digamos, certo carinho. É preciso conhecer seus meandros e suas preferências para conseguirmos derrotar esses animais peçonhentos. Muitas vezes, o caminho que encontramos para vencer as etapas da cura – quase sempre da autocura – desemboca em alguma forma de arte, pois a dor – da mesma maneira que a libido – precisa ser extravasada para que não nos sufoque. De um desses percursos noturnos, silenciosos e solitários nasceu Nigthwood, da escritora Djuna Barnes (1892-1982), traduzido no Brasil como No bosque da noite.
Vivendo na França desde 1919, Djuna o publica em 1936. Ela já é, então, uma autora famosa graças ao seu trabalho como jornalista, a diversos contos e, principalmente, ao romance Ryder, de 1928. Em 1939, contudo, ela abandonará Paris para sempre, vivendo um colapso físico e emocional que se estenderá por muitos anos e do qual só conseguirá libertar-se depois de enfrentar seus fantasmas e suas neuroses, conseqüências de uma vida familiar – descrita por Louise DeSalvo em Concebido com maldade (Editora Record) – marcada pela violência, pelo incesto e por outros tipos de abuso sexual.
Imortalizada nas páginas do romance O sol também se levanta, de Ernest Hemingway, na autobiografia de Paul Bowles, Without stopping, e em Finnegans wake, de James Joyce, de quem foi amiga íntima, Djuna parece estar viva sempre que relemos sua descrição, escrita pela artista Peggy Bacon: "Uma elegante cabeça erguida sobre um pescoço esguio e longo corpo aristocrático. Cabelos louro pêssego ondulados. Nariz muito arrebitado e desdenhoso. Olhos luminosos em cavernas de sombra, olhar firme, penetrante, como de um gato siamês. A boca forma uma elipse imóvel, um quê de Habsburgo. Parece um solitário pássaro errante, indiferente, equilibrado e isolado, captado numa longa pausa." (Apud Louise DeSalvo)
No bosque da noite é uma das muitas etapas enfrentadas pela autora até chegar a The antiphon (A antífona – apresentada em 1956, mas publicada em 1958), o drama poético por meio do qual ela finalmente acerta suas contas com o passado. "Escrevi A antífona de dentes cerrados, e observei... que minha caligrafia havia mudado, era tão cruel quanto uma adaga", escreve Djuna à novelista Willa Muir, em julho de 1961.
A atmosfera de sonho – e, em muitos momentos, de pesadelo –que envolve No bosque da noite pode ser entendida como um prenúncio da vingança que a escritora concretizará em A antífona. Nesse mundo onírico, no qual os homens são fracos ou homossexuais, a paixão, o ciúme e o desencontro entre duas mulheres, Nora Flood e Robin Vote, conformam uma materialidade inusitada, em que culpa, amor e preconceito travam opressivos embates.
O livro esconde também uma função catártica, pois Djuna acreditava que quando superamos uma experiência traumática expressando-nos por meio da arte, tal experiência é "recolocada em seu próprio lugar, devolvida a si mesma (...)". A obra nos mostra, portanto, ainda que de forma velada, muitas das frustrações e alegrias experimentadas por Djuna ao lado da escultora Thelma Wood, com quem viveu durante seu período parisiense. Nele encontramos, por exemplo, a boneca que Thelma lhe dera e depois quebrara em uma cena de ciúme. A mesma boneca – guardada por Djuna até sua morte – que, segundo DeSalvo, seria "o símbolo do filho que a relação lésbica das duas não podia conceber".
A autora delineia uma metafísica pessoal em No bosque da noite, cuja fauna vive imersa em um pântano de tortura mental. Os personagens surgem, se digladiam, jamais vencem seus dramas pessoais, e guardam a certeza de que a vida é apenas "a permissão para conhecer a morte". Ou, utilizando-se de uma angustiosa retórica: "A vida, o pasto em que a noite se alimenta e refina o remoalho que nos nutre até o desespero."
Tudo sempre é noite. Para Djuna, há um espaço insuperável entre o homem e a realidade, preenchido pela tragédia: "Sim, nós, que estamos cheios até a garganta com a desgraça, deveríamos olhar bem em volta, duvidando de tudo que se vê, de tudo que se faz, de tudo que se diz, precisamente porque temos um nome para dar a essas coisas, mas não sua alquimia." O segredo da existência, os porquês que carregamos conosco, nunca terão resposta, ela nos diz.
Apesar da escuridão e da permanente dúvida a que estamos ancorados, existir e amar são apresentados no romance como atos indissociáveis, mas são também fardos pesados demais ao homem: "Fomos criados para que a terra pudesse tomar consciência de seu gosto desumano; e amamos para que o corpo possa ser tão precioso que mesmo a terra deva rugir em torno dele."
E se o amor é o centro da existência, Djuna nos mostra que ele jamais sobrevive apartado da dor, mesmo quando desejamos exatamente o contrário: "Um homem pode se ressentir do mal ou evitá-lo em seu próprio plano, mas quando ele é o gume fino e aguçado de seus sonhos, ele o guarda em seu coração, como se guarda no coração a desgraça escura de um pesadelo secreto, nascido e assassinado na mente individual; de modo que se um deles estivesse morrendo de varíola, o outro desejaria morrer dela também, com dois sentimentos, terror e prazer, fundidos em algum lugar no fundo, formando um mar disforme onde um cisne (...) soçobra chorando." Ou seja, "amor é morte, vinda sobre nós com paixão".
Todos os murmúrios noturnos desse hermético romance nos convidam a ouvir uma única voz: a da autora. Ela não parece preocupada em criar personagens que sejam convincentes a ponto de parecerem ter vida própria, mas utiliza-os friamente, a fim de refletir sobre seus temores, expressar suas dúvidas e desbravar a intrincada floresta que traz dentro de si.
Na escrita tortuosa de Djuna Barnes encontram-se forças que se libertam apenas depois de insistentes leituras. Imagens e verdades inesperadas saltarão do livro somente àqueles obstinados cuja principal característica deve ser a devoção ao texto – e cujo prêmio se encontra muito longe de qualquer promessa de reconfortante paraíso.

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