Descrição do produto
Djuna Barnes
Códex Editora
200 páginas
14 x 21 cm
Obra-prima da escritora americana Djuna Barnes, No bosque da noite tornou-se um livro cultuado por diversos escritores logo após seu lançamento em 1936. Já no prefácio, o editor e poeta T. S. Eliot destacava a grande realização de um estilo, a beleza das frases, o brilho do espírito e da caracterização, e uma qualidade de horror e perdição muito proximamente ligada à da tragédia elisabetana. Outros autores fizeram parte desse coro, como James Joyce, Graham Greene e Dylan Thomas.
Barnes conta, neste livro, a história do tumultuoso amor entre Nora Flood e a jovem e excêntrica Robin Vote. Mas para isso a autora retrata de forma quase que dramática a vida de uma sociedade em decadência e que viu sua identidade aos poucos se esboroar.
Crítica publicada por Rodrigo Gurgel na Storm Magazine
A floresta noturna de Djuna Barnes
Superamos a angústia, quando necessário, passo a passo. Todas as dores psíquicas exigem uma atenção demorada. Até mesmo, digamos, certo carinho. É preciso conhecer seus meandros e suas preferências para conseguirmos derrotar esses animais peçonhentos. Muitas vezes, o caminho que encontramos para vencer as etapas da cura – quase sempre da autocura – desemboca em alguma forma de arte, pois a dor – da mesma maneira que a libido – precisa ser extravasada para que não nos sufoque. De um desses percursos noturnos, silenciosos e solitários nasceu Nigthwood, da escritora Djuna Barnes (1892-1982), traduzido no Brasil como No bosque da noite.
Vivendo na França desde 1919, Djuna o publica em 1936. Ela já é, então, uma autora famosa graças ao seu trabalho como jornalista, a diversos contos e, principalmente, ao romance Ryder, de 1928. Em 1939, contudo, ela abandonará Paris para sempre, vivendo um colapso físico e emocional que se estenderá por muitos anos e do qual só conseguirá libertar-se depois de enfrentar seus fantasmas e suas neuroses, conseqüências de uma vida familiar – descrita por Louise DeSalvo em Concebido com maldade (Editora Record) – marcada pela violência, pelo incesto e por outros tipos de abuso sexual.
Imortalizada nas páginas do romance O sol também se levanta, de Ernest Hemingway, na autobiografia de Paul Bowles, Without stopping, e em Finnegans wake, de James Joyce, de quem foi amiga íntima, Djuna parece estar viva sempre que relemos sua descrição, escrita pela artista Peggy Bacon: "Uma elegante cabeça erguida sobre um pescoço esguio e longo corpo aristocrático. Cabelos louro pêssego ondulados. Nariz muito arrebitado e desdenhoso. Olhos luminosos em cavernas de sombra, olhar firme, penetrante, como de um gato siamês. A boca forma uma elipse imóvel, um quê de Habsburgo. Parece um solitário pássaro errante, indiferente, equilibrado e isolado, captado numa longa pausa." (Apud Louise DeSalvo)
No bosque da noite é uma das muitas etapas enfrentadas pela autora até chegar a The antiphon (A antífona – apresentada em 1956, mas publicada em 1958), o drama poético por meio do qual ela finalmente acerta suas contas com o passado. "Escrevi A antífona de dentes cerrados, e observei... que minha caligrafia havia mudado, era tão cruel quanto uma adaga", escreve Djuna à novelista Willa Muir, em julho de 1961.
A atmosfera de sonho – e, em muitos momentos, de pesadelo –que envolve No bosque da noite pode ser entendida como um prenúncio da vingança que a escritora concretizará em A antífona. Nesse mundo onírico, no qual os homens são fracos ou homossexuais, a paixão, o ciúme e o desencontro entre duas mulheres, Nora Flood e Robin Vote, conformam uma materialidade inusitada, em que culpa, amor e preconceito travam opressivos embates.
O livro esconde também uma função catártica, pois Djuna acreditava que quando superamos uma experiência traumática expressando-nos por meio da arte, tal experiência é "recolocada em seu próprio lugar, devolvida a si mesma (...)". A obra nos mostra, portanto, ainda que de forma velada, muitas das frustrações e alegrias experimentadas por Djuna ao lado da escultora Thelma Wood, com quem viveu durante seu período parisiense. Nele encontramos, por exemplo, a boneca que Thelma lhe dera e depois quebrara em uma cena de ciúme. A mesma boneca – guardada por Djuna até sua morte – que, segundo DeSalvo, seria "o símbolo do filho que a relação lésbica das duas não podia conceber".
A autora delineia uma metafísica pessoal em No bosque da noite, cuja fauna vive imersa em um pântano de tortura mental. Os personagens surgem, se digladiam, jamais vencem seus dramas pessoais, e guardam a certeza de que a vida é apenas "a permissão para conhecer a morte". Ou, utilizando-se de uma angustiosa retórica: "A vida, o pasto em que a noite se alimenta e refina o remoalho que nos nutre até o desespero."
Tudo sempre é noite. Para Djuna, há um espaço insuperável entre o homem e a realidade, preenchido pela tragédia: "Sim, nós, que estamos cheios até a garganta com a desgraça, deveríamos olhar bem em volta, duvidando de tudo que se vê, de tudo que se faz, de tudo que se diz, precisamente porque temos um nome para dar a essas coisas, mas não sua alquimia." O segredo da existência, os porquês que carregamos conosco, nunca terão resposta, ela nos diz.
Apesar da escuridão e da permanente dúvida a que estamos ancorados, existir e amar são apresentados no romance como atos indissociáveis, mas são também fardos pesados demais ao homem: "Fomos criados para que a terra pudesse tomar consciência de seu gosto desumano; e amamos para que o corpo possa ser tão precioso que mesmo a terra deva rugir em torno dele."
E se o amor é o centro da existência, Djuna nos mostra que ele jamais sobrevive apartado da dor, mesmo quando desejamos exatamente o contrário: "Um homem pode se ressentir do mal ou evitá-lo em seu próprio plano, mas quando ele é o gume fino e aguçado de seus sonhos, ele o guarda em seu coração, como se guarda no coração a desgraça escura de um pesadelo secreto, nascido e assassinado na mente individual; de modo que se um deles estivesse morrendo de varíola, o outro desejaria morrer dela também, com dois sentimentos, terror e prazer, fundidos em algum lugar no fundo, formando um mar disforme onde um cisne (...) soçobra chorando." Ou seja, "amor é morte, vinda sobre nós com paixão".
Todos os murmúrios noturnos desse hermético romance nos convidam a ouvir uma única voz: a da autora. Ela não parece preocupada em criar personagens que sejam convincentes a ponto de parecerem ter vida própria, mas utiliza-os friamente, a fim de refletir sobre seus temores, expressar suas dúvidas e desbravar a intrincada floresta que traz dentro de si.
Na escrita tortuosa de Djuna Barnes encontram-se forças que se libertam apenas depois de insistentes leituras. Imagens e verdades inesperadas saltarão do livro somente àqueles obstinados cuja principal característica deve ser a devoção ao texto – e cujo prêmio se encontra muito longe de qualquer promessa de reconfortante paraíso.