Loucas noites

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Loucas noites – Wild nights
55 Poemas de Emily Dickinson
Tradução e comentários de Isa Mara Lando
DISAL Editora
208 páginas

Seleção de poemas de uma das grandes poetas da língua inglesa, aqui em edição bilíngue. Reclusa, intensa e totalmente dedicada ao mundo dos sentimentos, Emily Dickinson criou uma obra que impacta pela potência e economia de palavras. E o interessante para nós é que dedicou vários de seus poemas mais fortes à sua cunhada, por quem muitos críticos dizem ter sido apaixonada durante toda a vida.

Loucas noites

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Loucas noites – Wild nights
55 Poemas de Emily Dickinson
Tradução e comentários de Isa Mara Lando
DISAL Editora
208 páginas
15x21 cm

Um livro feito com muito capricho, que agrada tanto às que já conhecem a poesia de Emily Dickinson como às que ainda não tiveram a oportunidade de apreciá-la.
Essa extraordinária poeta americana (1830-1885), que viveu reclusa em sua casa em Amherst, Massachusetts, e na época foi quase totalmente ignorada, é hoje uma autora cult, cuja importância e influência não param de crescer.
Seus poemas breves, de forma livre, ressoam perfeitamente com a nossa sensibilidade moderna e nos trazem insights fulgurantes sobre a vida, a natureza, o amor e a morte, expressos em poucas linhas, de forma brilhante e extremamente original.
Nesse livro bilíngüe a leitora encontra 55 poemas com original e tradução frente a frente, permitindo a comparação para os que conhecem ou estudam a língua inglesa. Selecionados entre os mais famosos e representativos da autora, vários deles se incluem entre os mais belos e conhecidos da língua inglesa, como I’m Nobody! Who are you?, I died for Beauty, Success is counted sweetest, I held a Jewel in my fingers.
Como contribuição original este livro oferece, além dos 55 poemas, o “making of” – um breve comentário sobre a tradução de cada um, material valioso para estudantes e professores de Letras e todos os que se interessam pela arte da tradução poética. Inclui ainda uma biografia da Autora, facsímiles de três manuscritos e vários outros materiais de interesse para os que já conhecem ou desejam conhecer Emily Dickinson.
As traduções primorosas de Isa Mara Lando, fruto de vários anos de trabalho, permitem ao leitor brasileiro apreciar a poesia dessa Autora, quase anônima na sua época e hoje considerada uma das maiores vozes da poesia lírica de todos os tempos.
Com linda capa, miolo com delicados detalhes em lilás e preço acessível, é um livro precioso para se desfrutar ou um belo presente para oferecer.

Trecho

Uma Irmã tenho eu em casa,
E outra na casa vizinha.
No registro há só uma
Mas as duas são bem minhas:

Uma veio pelo meu caminho –
Com meu vestido do ano passado –
A outra, como faz o passarinho,
Entre os nossos corações fez seu ninho.

Não cantava como nós –
Era uma outra canção –
Música para si mesma
Como Abelha no verão.

Hoje vai longe a Infância –
Mas subindo e descendo as colinas
A sua mão segurei mais firme –
Tornando mais breve o caminho –

Seu suave murmurar
Em meio aos anos que passam
Ainda engana a Borboleta;
Ainda em seus Olhos estão,
Fanadas, as Violetas.

O orvalho derramei, perdi –
Mas a flor da manhã eu colhi –
Escolhi essa estrela, única
Entre todas, na Imensidade –
Sue – para a eternidade!

*

One Sister have I in our house,
And one, a hedge away.
There’s only one recorded,
But both belong to me:

One came the road that I came –
And wore my last year’s gown –
The other, as a bird her nest,
Builded our hearts among.

She did not sing as we did –
It was a different tune –
Herself to her a music
As Bumblebee of June.

Today is far from Childhood –
But up and down the hills
I held her hand the tighter –
Which shortened all the miles –

And still her hum
The years among,
Deceives the Butterfly;
Still in her Eye
The Violets lie
Mouldered this many May.

I spilt the dew –
But took the morn –
I chose this single star
From out the wide night’s numbers –
Sue – forevermore!


Comentário

Com esse poema Emily dá as boas vindas a Susan Huntington Dickinson, que veio fazer parte da família. Amiga de Emily desde que ambas tinham 17 anos, Susan casou-se com Austin, o irmão mais velho de Emily e Lavinia, e veio constituir família na casa ao lado – The Evergreens, hoje também parte do Emily Dickinson Museum.
Neste poema de beleza singela a poeta abre o coração para expressar seu profundo amor por Susan, que considera sua “Irmã”, tanto quanto a outra irmã, a “registrada”. Numa imagem encantadora, a irmã menor é aquela que vem pelo seu caminho, usando seus vestidos do ano passado; a outra, recém-chegada, “entre os nossos corações fez seu ninho”.
Susan, mulher inteligente e culta, professora de matemática e autora publicada de contos e resenhas, em geral era a primeira a receber os poemas de Emily, que lia com olhos perspicazes. Até o fim da vida da poeta as duas amigas mantiveram um diálogo emocional e intelectual intenso, pessoalmente e por meio de incontáveis cartas e bilhetes, onde compartilhavam desde as alegrias e vicissitudes da família até as leituras feitas por ambas e as preocupações metafísicas.
Embora as duas amigas e cunhadas se ocupassem muito das tarefas domésticas e nem sempre pudessem se encontrar pessoalmente, havia uma troca constante de cartas e bilhetes, levados de lá para cá pelas crianças – os três filhos de Susan e Austin – ou pelos criados. Entre as duas casas havia um caminho batido através do gramado – caminho, segundo Emily, “wide enough for two who love” – “largo o bastante para duas pessoas que se amam”. Da janela lateral de seu quarto Emily via The Evergreens, e colocou nessa posição favorável a mesinha de canto onde escrevia, e também a sua cama. Segundo a sobrinha Martha, a luz acesa à noite no quarto de Emily era “uma saudação muda entre as duas”.
Emily expressou seu amor e devoção por Susan em uma quantidade de “letter poems” – pequenos poemas indistinguíveis de um bilhete. O livro Open Me Carefully reproduz muitos em fac-símile, dizendo, por exemplo: “Susan’s idolater keeps a shrine for Susan” (“A idólatra de Susan mantém um santuário para Susan”); “Only woman in the world” (“Única mulher no mundo”); “To own a Susan of my own is of itself a Bliss” (“Ter uma Susan só minha já é a Bem-Aventurança”), “Busy missing you – I have not tasted Spring” (“Ocupada em sentir saudades de você – não senti o gosto da Primavera
A amizade durou mais de trinta anos, embora, ao que parece, Susan não correspondesse à intensidade dos sentimentos de Emily. O que aconteceu de fato jamais saberemos, pois Emily prezava muito sua privacidade e antes de morrer pediu a sua irmã Lavinia que queimasse todas as cartas que havia guardado. (Nada disse, porém, sobre os poemas.) Assim, foram recuperadas muitas cartas que Emily escreveu, mas as que recebeu foram destruídas.
Os primeiros que editaram os poemas, Mabel Loomis Todd e o crítico T.W. Higginson (veja a pág. 21), tudo fizeram para minimizar essa ligação intensa e duradoura entre as duas amigas e esconder do mundo os fortes sentimentos de Emily. Ao manipular os papéis originais, apagaram ou cortaram com tesoura a dedicatória “To Sue”, ou “Darling”, escrita a lápis em muitos deles.
Em outra frente, Susan e sua filha, Martha Dickinson Bianchi, também editaram centenas de cartas e mais de trezentos poemas enviados por Emily, preparando-os para uma futura publicação. Desejosa de proteger sua privacidade, Susan destruiu muitos poemas, por serem, segundo ela, “demasiado pessoais e adulatórios para jamais serem publicados”.
Confiou o material à filha Martha, pedindo-lhe que só o publicasse após a sua morte, ocorrida em 1913.
Compreende-se que, na época, era muito difícil aceitar uma ligação homoerótica com a naturalidade com que vemos hoje. Muitos também já lembraram que na época vitoriana era comum se formarem amizades muito intensas e românticas entre mulheres, talvez por viverem muito separadas dos homens. No entanto, sobreviveram vários poemas dedicados a Susan com viés erótico inegável, como Her sweet Weight on my Heart a Night.
Eis mais um pequeno poema dedicado a Susan onde Emily mostra seu amor – “investimento” que lhe rendia diminutos, mas preciosos rendimentos:

The incidents of Love
Are more than its Events –
Investment’s best Expositor
Is the minute Per Cents –

(Os incidentes do Amor / São mais do que os seus Eventos – /O melhor
Investimento se expõe / Nos diminutos Por Cento – )

E neste letter-poem Emily expressa o valor de Susan aludindo às minas de ouro do Peru e à cidade bíblica de Ofir, rica em sândalo e pedras preciosas:

Susan – I dreamed
of you, last
night, and send
a Carnation to
indorse it –
Sister of Ophir –
Ah Peru
Subtle the Sum
That purchase
you –

(Susan – Sonhei com você esta noite, e aqui mando um Cravo para endossar
– Irmã de Ofir – Ah Peru – Sutil é a Soma capaz de te comprar –)

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