Descrição do produto
Diedra Roiz
Edição da autora
168 páginas
16x23 cm
Vic é médica durante o dia mas à noite solta seu lado conquistadora, conseguindo muitas mulheres e fugindo de qualquer envolvimento. Anda sempre com seus amigos Théo, Gui e Igor, comparsas nas noitadas e nos segredos.
Até que, claro, surge o amor para revirar os planos e desestabilizar as rotinas, obrigando Vic a rever seus medos e suas mentiras.
Sobre a autora
Carioca, sagitariana, praticante do budismo de Nitiren Daishonin, formada em Direito na UERJ e Artes Cênicas na UNI RIO. Começou a escrever e postar contos e romances na internet em Dezembro de 2007. Colunista do site Parada Lésbica e contista de diversos sites e da revista digital LOLA! Seu conto "Perdas, danos e afins" foi publicado no livro Olhares diversos (2008) após conquistar 2º lugar no Concurso Nacional de Contos Lésbicos. Com o conto "A dança das raposas" obteve menção honrosa no 7º Concurso Guemanisse que deu origem ao livro Literatum & poeticum (2009). Publicou seu primeiro livro, o romance O livro secreto das mentiras & medos em novembro de 2009. Também é uma das autoras selecionadas para a II Colectânea de Contos da Diversidade promovido pelo site português Tangas Lésbicas a ser lançado em junho de 2010, e tem um blog (www.diedraroiz.blogspot.com) onde posta poesias, contos, romances e crônicas.
do prefácio por Wind Rose:
“Diedra não cria personagens. Ela os identifica e nos aponta sua essência. Cada palavra escrita exala, expõe, revela aquilo que é cheiro, textura e forma... É carne esfregada no asfalto ou plumas ao sabor do vento."
Leia um trecho
LÁ SE FOI MAIS UMA. SEGUIU MAJESTOSA, ALTIVA EM SUA indignação. O tapa ainda ardia. Não de forma que realmente incomodasse.
Não foi a primeira a me xingar, nem a me bater. Mulheres tendem a exage-rar os sentimentos, normal.
Sempre fui cobrada pelo que não prometi. Era sexo, nada mais. Esse “nada mais”, sempre explicado bem claramente.
Não que eu fosse perder o meu tempo. Era mais uma daquelas que só escu-tavam o que queriam. Mais uma que achava que na sinceridade fria das minhas palavras existia algum tipo de código ou subtexto que dizia exatamente o contrário. Ou talvez aquele tipo que pensava que poderia me fazer mudar de ideia.
Sabia muito bem o que queria, e definitivamente, não era um relacionamen-to.
Dei de ombros e até achei graça de toda aquela repetição. Mais ainda, por saber que o showzinho teria como resultado o olhar interessado das mulheres em volta, presas naquele tipo de atração incontrolável por tudo aquilo que não presta.
Escutei meus amigos me provocarem. Não liguei. Acostumada a não ceder mais a nenhum tipo de instigação deles. Principalmente as regadas pelo álcool.
O primeiro a falar foi Théo: — E essa foi a número...?
Dei de ombros novamente: — Não estou contando.
Gui puxou um papelzinho do bolso e respondeu: — Ah, mas eu estou... Trezentas e vinte e seis!
Não estava se referindo ao número de bofetadas que havia levado, obvia-mente. Apesar de também terem sido muitas, a contagem no caso era do núme-ro de mulheres que levei para a cama.
O começo daquilo?
O filme Quatro Casamentos e Um Funeral.
Inspirados pela cena na qual Andie MacDowell conta para um Hugh Grant chocado os trinta e três homens com quem havia se relacionado sexualmente, inclusive ele.
Desde então, começamos a contar também. Uma pequena e inocente com-petição entre amigos.
Na época, minha única experiência me fazia estar em último lugar, perdendo vergonhosamente. Como minha posição no ranking mudou? Facílimo. Bastou entender que o excesso de sentimentos prejudica a pontuação, para rapidamen-te passar de quarto ao primeiro lugar.
Ridículo, infantil, a maior besteira. Brincadeira que, por mim, havia termina-do há muito tempo.
Porém, mais de doze anos depois, Gui continuava obcecado com aquilo. Contava e anotava, num papelzinho que trazia sempre com ele. Inspirado em O Amor nos Tempos de Cólera, talvez. Passava os rascunhos a limpo num caderno de capa preta que deixava em casa, guardado como um tesouro.
Ou segredo.
Igor engasgou com a cerveja. Tossiu, e só conseguiu exclamar: — Trezentas e vinte e seis?!
Théo completou com um misto de admiração e inveja: — Cara, como você consegue?
Foi Gui quem respondeu: — Não é tanto, pensa: se for uma por semana, são quatro por mês. Quarenta e oito em um ano... Em doze anos sem nunca ter namorado ninguém — e é só por isso que estamos atrás — quinhentas e seten-ta e seis. Na verdade, Vic, você tá devendo! Corra atrás do prejuízo, baby!
— Vai à merda!
Que mais poderia dizer?
Completei: — Corram atrás do prejuízo, vocês.
Igor me olhou estranhamente. Não com inveja, nem despeito, mas sim com algo muito parecido com pena: — Tantas mulheres, Vic... Alguma que você se lembre?
Evitei olhar para Gui ao dizer: — Que diferença isso faz?
— Vi, é a sua vez!
Não conseguia deixar de admirar Pietra. Aos 14 anos tinha um corpo perfeito. Ninguém diria que eu era quase seis meses mais velha. Parecia uma criança perto da minha melhor e mais querida amiga.
Estávamos sentadas no chão de seu quarto. Com o primo de Pietra e um a-migo, brincando de verdade ou...
— Consequência.
Os dois garotos de dezesseis anos se entreolharam, rindo. Um deles orde-nou:
— Beija a Pietra na boca.
Rimos de como garotos poderiam ser ridículos. O que havia de mais em dar um estalinho na minha melhor amiga?
Foi quando ele completou: — Beijo de língua.
Pietra protestou: — Você é doente, sabia?
Não sei por que, a frase me magoou. Pietra percebeu — como sempre acon-tecia — o que eu estava sentindo. Mas interpretou de outra forma:
— Liga não. Depois vamos fazer esses dois babacas pagarem na mesma mo-eda.
Aproximou o rosto do meu e me beijou.
Havia beijado alguns meninos, mas não estava preparada para aquilo. Os lá-bios suaves, macios... A língua que se enroscava delicadamente na minha. As mãos que seguravam o meu rosto com carinho... Minha respiração se alterou, ficou entrecortada, difícil. Pude jurar que ela sentia o mesmo. Que o contato durou muito mais do que o preciso.
Nos separamos fisicamente, mas os olhares continuaram unidos. Não conse-gui disfarçar.
Pietra viu.
Entretanto, desviou os olhos rapidamente, rindo. Como se nada houvesse significado. Ou pior, sequer houvesse acontecido: — Satisfeitos?
Magoada, frustrada, perdida... Sensações, que passei a conhecer bem ao longo da vida.
Percebi o olhar de Gui para mim, mas fingi que não vi.
Théo insistiu: — Vamos lá, Vic... Fala sério... Será possível que não tem na-da escondido nesse seu coraçãozinho?
Dei um gole na água com gás que segurava, sorrindo com a superioridade de sempre: — O coração é um órgão muscular oco, meu querido. Vazio.
Igor estava realmente estranho. Quase enigmático quando disse: — Algu-mas pessoas escolhem a profissão para compensar o que lhes falta...
Aquela conversa estava me incomodando, mas não deixaria transparecer. Fui em frente: — Seja mais claro.
A resposta foi imediata: — Não é à toa que você é cardiologista. Pensa nis-so.
Ele continuou me olhando profundamente e balançou significativamente a cabeça, como que ratificando o que disse.
Gui implicou: — Bom, em ginecologia a doutora já nasceu especialista...
Théo e ele riram às gargalhadas. Mas Igor chegou perto de mim e falou bai-xo, para que somente eu escutasse:
— Só disse isso porque me preocupo com você.
— O que tem pra se preocupar, bicha? Tô ótima!
Ele passou o braço ao redor do meu ombro, num abraço amigável: — Mesmo?
Respondi com um sorriso indiferente: — Claro.
Gui interrompeu: — Vamos lá? Tá valendo?
Théo completou: — O de sempre. O último a pegar paga a comanda dos outros três.
Igor parecia desconfortável. Sabíamos bem o motivo. Ele havia pagado o mês inteiro. Não que o problema fosse dinheiro. Era difícil aguentar a chacota de Gui e Théo durante tanto tempo.
Os dois, aliás, não perderam nenhum. Em questão de minutos já estavam aos beijos com os primeiros caras que apareceram.
Estava entre Igor e eu.
Foi quando decidi fazer algo inusitado: perder.
Fiquei conversando com ele sem nem olhar para os lados. Gui passou por nós rumo ao banheiro e soltou um:
— Como é que é?
Respondi sem a menor paciência: — Não enche!
Mas então, uma morena de sorriso irresistível parou na minha frente. Disse apenas: — Oi.
Olhei para Igor.
Ele entendeu. Sorriu, deu de ombros e falou: — Tudo bem.
Em menos de uma hora, estava entrando com a morena num quarto de mo-tel.
— Para! Já falei que não quero!
O primo de Pietra estava em cima de mim. As mãos dentro da minha calcinha, os dedos tentando ir mais além. Ofegou no meu pescoço: — Por que não?
Empurrei-o para longe. Respondi irritada, ajeitando a roupa e os cabelos: — Preciso de mais tempo.
Ele sentou na cama também: — Três anos de namoro... Não é tempo suficiente?
Na cama ao lado, Pietra parou o que estava fazendo — beijando e se pegan-do com o namorado — para rir da cara do primo: — Talvez seja um problema de qualidade, não de tempo.
— E quem sofre por causa da sua incompetência sou eu — o namorado de Pietra sacaneou o amigo.
Era simples o que ele queria dizer. Pietra havia deixado claro que nós duas perderíamos a virgindade juntas. Uma ao lado da outra. Ela na cama da irmã, e eu, na dela. Lado a lado. Namorávamos assim o tempo inteiro. Desde o dia do fatídico beijo.
Não conseguia definir nem entender meus próprios sentimentos. Estranha mistura de excitação, raiva, culpa, medo.
Fingindo que era Pietra quem me tocava, ouvindo os gemidos dela e desejando ser a causadora deles. Três anos de uma tortura em que o desejo era tão grande, que chegava a conseguir transformar dor em prazer.
Acordei com meu celular tocando insistentemente. Atendi me sentando na cama sem nenhum cuidado com a mulher enroscada em mim.
— Vic, cadê você?
Théo parecia furioso. Esfreguei os olhos antes de responder: — Onde você acha?
Ele bufou do outro lado. Quase gritou: — Não acredito que você esqueceu!
Havia esquecido mesmo. Mas lembrei de repente: aniversário da irmã de Théo, no qual, como sempre, eu deveria posar de namorada, uma vez que ele não assumia para a família que era gay.
Impliquei: — Por que você não conta logo de uma vez, viado? Do jeito que você dá pinta, vão acabar descobrindo mesmo...
Théo suspirou com uma exasperação evidente: — Se depender de você, vão mesmo!
O corpo que se ajoelhou atrás de mim colando a boca na minha nuca me deixou completamente arrepiada. Seria um pecado sair correndo sem saborear aquele magnífico espécime mais uma vez...
— Por que você não diz que brigamos, discutimos ou sei lá o quê?
Minha mão livre já passeava nas curvas que se ofereciam suplicando, suspirando no meu ouvido:
— Desliga... Quero você...
Depois de um breve silêncio, Théo deixou escapar um: — Vic, você prometeu...
Digno de pena.
Uma coisa que eu não aguentava era dizer não a um amigo.
Já encaixada e me movimentando de um jeito que fez a morena gemer deli-ciosamente, só consegui dizer: — Fala que vamos atrasar. Explica que tive um paciente de emergência e me pega lá em casa daqui duas horas.
Ele respondeu com um alívio imenso: — Ok.
Soltei o celular em cima dos travesseiros: — Tenho pouco tempo, gata. Vamos logo aos finalmentes...
Mergulhei na pele ardente afundando em rápidas, efêmeras, mas satisfatórias espirais de prazer.
Pietra estava impaciente: — Vi, qual é o seu problema?
— Não consigo sentir pelo meu namorado o que sinto por você.
Era o que deveria ter dito. Mas só pensei.
Meu silêncio a irritou mais ainda: — Não aguento mais! Tô subindo pelas pa-redes! Você é frígida ou o quê?
Pensei naquele “o quê”. Mas não poderia confessar para ninguém. Nem para mim mesma...
Comecei a chorar convulsivamente.
Na mesma hora ela mudou. Me abraçou e embalou dizendo: — Desculpa... Não queria te magoar... Não chora, Vi... Não suporto te ver assim...
Ficamos ali abraçadas muito tempo. Até a pressão que sentia no peito abran-dar e eu finalmente parar de soluçar.
Pietra perguntou baixinho: — Você tem medo de quê?
Passou a mão de leve pelo meu braço me arrepiando os pelos.
Sussurrou no meu ouvido: — Posso te ajudar. Como a gente fazia antes, lem-bra?
Como poderia esquecer?
Beijos e carícias que trocávamos com a desculpa de estarmos treinando, nos preparando para não fazer feio com os meninos...
Mas era passado. Havia acabado há alguns meses. Com Pietra chegando ao clímax debaixo do namorado no meio de intermináveis amassos e beijos.
Não precisou me contar. Vi e ouvi perfeitamente.
Uma quase dor. Ciúme e ressentimento por não ser comigo aquela primeira explosão de prazer. Ao mesmo tempo a visão do rosto dela, os sons que escapa-vam entre os lábios, me umedecendo a ponto do meu namorado se empolgar e tentar conseguir o mesmo.
Gemi alto, me deixei levar, estremeci longamente, à medida que gozava nos dedos dele. Mas toda a minha paixão e entrega foram para a minha doce Pie-tra...
Que me olhava esperando a resposta.
Como poderia negar, me recusar a ter o que desejava por tanto tempo?
Balbuciei fracamente: — Vem.
Pietra caminhou até mim lentamente. Sentou-se ao meu lado. Começamos a nos beijar. Suspirei. Saudosa daqueles lábios suaves, tão suaves... Ao mesmo tempo vorazes e ardentes.
Fomos deitando e nos despindo, Pietra por cima de mim, uma das pernas entre as minhas. Deliciosamente consciente de seu calor úmido em minha coxa. O meu na dela.
Levantou minha blusa. Gemi. Mais ainda quando ela desceu a boca sobre meus seios. A mão percorreu minha barriga e coxas lentamente. Uma ânsia qua-se angustiante me fazendo tremer quando finalmente me tocou entre as pernas.
Fiz o mesmo. Imitando-a, como sempre. Me limitando a repetir seus gestos para que Pietra não percebesse o que eu realmente sentia.
Reprimindo o desejo de saciar minha necessidade dela com a intensidade que queria.
Mas daquela vez foi diferente. Minha mão parecia ter vontade própria, não me obedecia. Como nunca havia ousado, ultrapassei os limites da calcinha. To-quei-a com uma urgência febril. Fui seguida por Pietra.
Meus dedos nela. Os dela em mim.
Queria mais, muito mais, mas entre o roçar tantálico, entrecortado por gemi-dos, ela me impediu:
— Isso não... Quero que ele seja o primeiro...
Talvez movida pela insana dor que a rejeição cruel me fez sentir, encontrei forças para confessar: — E eu quero que você seja...
Não pude desvendar o olhar que Pietra me lançou. Uma infinidade de coisas bailando entre nós, indefiníveis nas mentes, nos espíritos. Sem que em nenhum momento nossos corpos se afastassem ou parassem o movimento contínuo.
Estranha e surpreendentemente, ela não se recusou, muito menos resistiu.
Passou a língua pelos lábios, e com um movimento muito mais carinhoso do que lascivo, fez o que pedi.
Edição da autora
168 páginas
16x23 cm
Vic é médica durante o dia mas à noite solta seu lado conquistadora, conseguindo muitas mulheres e fugindo de qualquer envolvimento. Anda sempre com seus amigos Théo, Gui e Igor, comparsas nas noitadas e nos segredos.
Até que, claro, surge o amor para revirar os planos e desestabilizar as rotinas, obrigando Vic a rever seus medos e suas mentiras.
Sobre a autora
Carioca, sagitariana, praticante do budismo de Nitiren Daishonin, formada em Direito na UERJ e Artes Cênicas na UNI RIO. Começou a escrever e postar contos e romances na internet em Dezembro de 2007. Colunista do site Parada Lésbica e contista de diversos sites e da revista digital LOLA! Seu conto "Perdas, danos e afins" foi publicado no livro Olhares diversos (2008) após conquistar 2º lugar no Concurso Nacional de Contos Lésbicos. Com o conto "A dança das raposas" obteve menção honrosa no 7º Concurso Guemanisse que deu origem ao livro Literatum & poeticum (2009). Publicou seu primeiro livro, o romance O livro secreto das mentiras & medos em novembro de 2009. Também é uma das autoras selecionadas para a II Colectânea de Contos da Diversidade promovido pelo site português Tangas Lésbicas a ser lançado em junho de 2010, e tem um blog (www.diedraroiz.blogspot.com) onde posta poesias, contos, romances e crônicas.
do prefácio por Wind Rose:
“Diedra não cria personagens. Ela os identifica e nos aponta sua essência. Cada palavra escrita exala, expõe, revela aquilo que é cheiro, textura e forma... É carne esfregada no asfalto ou plumas ao sabor do vento."
Leia um trecho
LÁ SE FOI MAIS UMA. SEGUIU MAJESTOSA, ALTIVA EM SUA indignação. O tapa ainda ardia. Não de forma que realmente incomodasse.
Não foi a primeira a me xingar, nem a me bater. Mulheres tendem a exage-rar os sentimentos, normal.
Sempre fui cobrada pelo que não prometi. Era sexo, nada mais. Esse “nada mais”, sempre explicado bem claramente.
Não que eu fosse perder o meu tempo. Era mais uma daquelas que só escu-tavam o que queriam. Mais uma que achava que na sinceridade fria das minhas palavras existia algum tipo de código ou subtexto que dizia exatamente o contrário. Ou talvez aquele tipo que pensava que poderia me fazer mudar de ideia.
Sabia muito bem o que queria, e definitivamente, não era um relacionamen-to.
Dei de ombros e até achei graça de toda aquela repetição. Mais ainda, por saber que o showzinho teria como resultado o olhar interessado das mulheres em volta, presas naquele tipo de atração incontrolável por tudo aquilo que não presta.
Escutei meus amigos me provocarem. Não liguei. Acostumada a não ceder mais a nenhum tipo de instigação deles. Principalmente as regadas pelo álcool.
O primeiro a falar foi Théo: — E essa foi a número...?
Dei de ombros novamente: — Não estou contando.
Gui puxou um papelzinho do bolso e respondeu: — Ah, mas eu estou... Trezentas e vinte e seis!
Não estava se referindo ao número de bofetadas que havia levado, obvia-mente. Apesar de também terem sido muitas, a contagem no caso era do núme-ro de mulheres que levei para a cama.
O começo daquilo?
O filme Quatro Casamentos e Um Funeral.
Inspirados pela cena na qual Andie MacDowell conta para um Hugh Grant chocado os trinta e três homens com quem havia se relacionado sexualmente, inclusive ele.
Desde então, começamos a contar também. Uma pequena e inocente com-petição entre amigos.
Na época, minha única experiência me fazia estar em último lugar, perdendo vergonhosamente. Como minha posição no ranking mudou? Facílimo. Bastou entender que o excesso de sentimentos prejudica a pontuação, para rapidamen-te passar de quarto ao primeiro lugar.
Ridículo, infantil, a maior besteira. Brincadeira que, por mim, havia termina-do há muito tempo.
Porém, mais de doze anos depois, Gui continuava obcecado com aquilo. Contava e anotava, num papelzinho que trazia sempre com ele. Inspirado em O Amor nos Tempos de Cólera, talvez. Passava os rascunhos a limpo num caderno de capa preta que deixava em casa, guardado como um tesouro.
Ou segredo.
Igor engasgou com a cerveja. Tossiu, e só conseguiu exclamar: — Trezentas e vinte e seis?!
Théo completou com um misto de admiração e inveja: — Cara, como você consegue?
Foi Gui quem respondeu: — Não é tanto, pensa: se for uma por semana, são quatro por mês. Quarenta e oito em um ano... Em doze anos sem nunca ter namorado ninguém — e é só por isso que estamos atrás — quinhentas e seten-ta e seis. Na verdade, Vic, você tá devendo! Corra atrás do prejuízo, baby!
— Vai à merda!
Que mais poderia dizer?
Completei: — Corram atrás do prejuízo, vocês.
Igor me olhou estranhamente. Não com inveja, nem despeito, mas sim com algo muito parecido com pena: — Tantas mulheres, Vic... Alguma que você se lembre?
Evitei olhar para Gui ao dizer: — Que diferença isso faz?
— Vi, é a sua vez!
Não conseguia deixar de admirar Pietra. Aos 14 anos tinha um corpo perfeito. Ninguém diria que eu era quase seis meses mais velha. Parecia uma criança perto da minha melhor e mais querida amiga.
Estávamos sentadas no chão de seu quarto. Com o primo de Pietra e um a-migo, brincando de verdade ou...
— Consequência.
Os dois garotos de dezesseis anos se entreolharam, rindo. Um deles orde-nou:
— Beija a Pietra na boca.
Rimos de como garotos poderiam ser ridículos. O que havia de mais em dar um estalinho na minha melhor amiga?
Foi quando ele completou: — Beijo de língua.
Pietra protestou: — Você é doente, sabia?
Não sei por que, a frase me magoou. Pietra percebeu — como sempre acon-tecia — o que eu estava sentindo. Mas interpretou de outra forma:
— Liga não. Depois vamos fazer esses dois babacas pagarem na mesma mo-eda.
Aproximou o rosto do meu e me beijou.
Havia beijado alguns meninos, mas não estava preparada para aquilo. Os lá-bios suaves, macios... A língua que se enroscava delicadamente na minha. As mãos que seguravam o meu rosto com carinho... Minha respiração se alterou, ficou entrecortada, difícil. Pude jurar que ela sentia o mesmo. Que o contato durou muito mais do que o preciso.
Nos separamos fisicamente, mas os olhares continuaram unidos. Não conse-gui disfarçar.
Pietra viu.
Entretanto, desviou os olhos rapidamente, rindo. Como se nada houvesse significado. Ou pior, sequer houvesse acontecido: — Satisfeitos?
Magoada, frustrada, perdida... Sensações, que passei a conhecer bem ao longo da vida.
Percebi o olhar de Gui para mim, mas fingi que não vi.
Théo insistiu: — Vamos lá, Vic... Fala sério... Será possível que não tem na-da escondido nesse seu coraçãozinho?
Dei um gole na água com gás que segurava, sorrindo com a superioridade de sempre: — O coração é um órgão muscular oco, meu querido. Vazio.
Igor estava realmente estranho. Quase enigmático quando disse: — Algu-mas pessoas escolhem a profissão para compensar o que lhes falta...
Aquela conversa estava me incomodando, mas não deixaria transparecer. Fui em frente: — Seja mais claro.
A resposta foi imediata: — Não é à toa que você é cardiologista. Pensa nis-so.
Ele continuou me olhando profundamente e balançou significativamente a cabeça, como que ratificando o que disse.
Gui implicou: — Bom, em ginecologia a doutora já nasceu especialista...
Théo e ele riram às gargalhadas. Mas Igor chegou perto de mim e falou bai-xo, para que somente eu escutasse:
— Só disse isso porque me preocupo com você.
— O que tem pra se preocupar, bicha? Tô ótima!
Ele passou o braço ao redor do meu ombro, num abraço amigável: — Mesmo?
Respondi com um sorriso indiferente: — Claro.
Gui interrompeu: — Vamos lá? Tá valendo?
Théo completou: — O de sempre. O último a pegar paga a comanda dos outros três.
Igor parecia desconfortável. Sabíamos bem o motivo. Ele havia pagado o mês inteiro. Não que o problema fosse dinheiro. Era difícil aguentar a chacota de Gui e Théo durante tanto tempo.
Os dois, aliás, não perderam nenhum. Em questão de minutos já estavam aos beijos com os primeiros caras que apareceram.
Estava entre Igor e eu.
Foi quando decidi fazer algo inusitado: perder.
Fiquei conversando com ele sem nem olhar para os lados. Gui passou por nós rumo ao banheiro e soltou um:
— Como é que é?
Respondi sem a menor paciência: — Não enche!
Mas então, uma morena de sorriso irresistível parou na minha frente. Disse apenas: — Oi.
Olhei para Igor.
Ele entendeu. Sorriu, deu de ombros e falou: — Tudo bem.
Em menos de uma hora, estava entrando com a morena num quarto de mo-tel.
— Para! Já falei que não quero!
O primo de Pietra estava em cima de mim. As mãos dentro da minha calcinha, os dedos tentando ir mais além. Ofegou no meu pescoço: — Por que não?
Empurrei-o para longe. Respondi irritada, ajeitando a roupa e os cabelos: — Preciso de mais tempo.
Ele sentou na cama também: — Três anos de namoro... Não é tempo suficiente?
Na cama ao lado, Pietra parou o que estava fazendo — beijando e se pegan-do com o namorado — para rir da cara do primo: — Talvez seja um problema de qualidade, não de tempo.
— E quem sofre por causa da sua incompetência sou eu — o namorado de Pietra sacaneou o amigo.
Era simples o que ele queria dizer. Pietra havia deixado claro que nós duas perderíamos a virgindade juntas. Uma ao lado da outra. Ela na cama da irmã, e eu, na dela. Lado a lado. Namorávamos assim o tempo inteiro. Desde o dia do fatídico beijo.
Não conseguia definir nem entender meus próprios sentimentos. Estranha mistura de excitação, raiva, culpa, medo.
Fingindo que era Pietra quem me tocava, ouvindo os gemidos dela e desejando ser a causadora deles. Três anos de uma tortura em que o desejo era tão grande, que chegava a conseguir transformar dor em prazer.
Acordei com meu celular tocando insistentemente. Atendi me sentando na cama sem nenhum cuidado com a mulher enroscada em mim.
— Vic, cadê você?
Théo parecia furioso. Esfreguei os olhos antes de responder: — Onde você acha?
Ele bufou do outro lado. Quase gritou: — Não acredito que você esqueceu!
Havia esquecido mesmo. Mas lembrei de repente: aniversário da irmã de Théo, no qual, como sempre, eu deveria posar de namorada, uma vez que ele não assumia para a família que era gay.
Impliquei: — Por que você não conta logo de uma vez, viado? Do jeito que você dá pinta, vão acabar descobrindo mesmo...
Théo suspirou com uma exasperação evidente: — Se depender de você, vão mesmo!
O corpo que se ajoelhou atrás de mim colando a boca na minha nuca me deixou completamente arrepiada. Seria um pecado sair correndo sem saborear aquele magnífico espécime mais uma vez...
— Por que você não diz que brigamos, discutimos ou sei lá o quê?
Minha mão livre já passeava nas curvas que se ofereciam suplicando, suspirando no meu ouvido:
— Desliga... Quero você...
Depois de um breve silêncio, Théo deixou escapar um: — Vic, você prometeu...
Digno de pena.
Uma coisa que eu não aguentava era dizer não a um amigo.
Já encaixada e me movimentando de um jeito que fez a morena gemer deli-ciosamente, só consegui dizer: — Fala que vamos atrasar. Explica que tive um paciente de emergência e me pega lá em casa daqui duas horas.
Ele respondeu com um alívio imenso: — Ok.
Soltei o celular em cima dos travesseiros: — Tenho pouco tempo, gata. Vamos logo aos finalmentes...
Mergulhei na pele ardente afundando em rápidas, efêmeras, mas satisfatórias espirais de prazer.
Pietra estava impaciente: — Vi, qual é o seu problema?
— Não consigo sentir pelo meu namorado o que sinto por você.
Era o que deveria ter dito. Mas só pensei.
Meu silêncio a irritou mais ainda: — Não aguento mais! Tô subindo pelas pa-redes! Você é frígida ou o quê?
Pensei naquele “o quê”. Mas não poderia confessar para ninguém. Nem para mim mesma...
Comecei a chorar convulsivamente.
Na mesma hora ela mudou. Me abraçou e embalou dizendo: — Desculpa... Não queria te magoar... Não chora, Vi... Não suporto te ver assim...
Ficamos ali abraçadas muito tempo. Até a pressão que sentia no peito abran-dar e eu finalmente parar de soluçar.
Pietra perguntou baixinho: — Você tem medo de quê?
Passou a mão de leve pelo meu braço me arrepiando os pelos.
Sussurrou no meu ouvido: — Posso te ajudar. Como a gente fazia antes, lem-bra?
Como poderia esquecer?
Beijos e carícias que trocávamos com a desculpa de estarmos treinando, nos preparando para não fazer feio com os meninos...
Mas era passado. Havia acabado há alguns meses. Com Pietra chegando ao clímax debaixo do namorado no meio de intermináveis amassos e beijos.
Não precisou me contar. Vi e ouvi perfeitamente.
Uma quase dor. Ciúme e ressentimento por não ser comigo aquela primeira explosão de prazer. Ao mesmo tempo a visão do rosto dela, os sons que escapa-vam entre os lábios, me umedecendo a ponto do meu namorado se empolgar e tentar conseguir o mesmo.
Gemi alto, me deixei levar, estremeci longamente, à medida que gozava nos dedos dele. Mas toda a minha paixão e entrega foram para a minha doce Pie-tra...
Que me olhava esperando a resposta.
Como poderia negar, me recusar a ter o que desejava por tanto tempo?
Balbuciei fracamente: — Vem.
Pietra caminhou até mim lentamente. Sentou-se ao meu lado. Começamos a nos beijar. Suspirei. Saudosa daqueles lábios suaves, tão suaves... Ao mesmo tempo vorazes e ardentes.
Fomos deitando e nos despindo, Pietra por cima de mim, uma das pernas entre as minhas. Deliciosamente consciente de seu calor úmido em minha coxa. O meu na dela.
Levantou minha blusa. Gemi. Mais ainda quando ela desceu a boca sobre meus seios. A mão percorreu minha barriga e coxas lentamente. Uma ânsia qua-se angustiante me fazendo tremer quando finalmente me tocou entre as pernas.
Fiz o mesmo. Imitando-a, como sempre. Me limitando a repetir seus gestos para que Pietra não percebesse o que eu realmente sentia.
Reprimindo o desejo de saciar minha necessidade dela com a intensidade que queria.
Mas daquela vez foi diferente. Minha mão parecia ter vontade própria, não me obedecia. Como nunca havia ousado, ultrapassei os limites da calcinha. To-quei-a com uma urgência febril. Fui seguida por Pietra.
Meus dedos nela. Os dela em mim.
Queria mais, muito mais, mas entre o roçar tantálico, entrecortado por gemi-dos, ela me impediu:
— Isso não... Quero que ele seja o primeiro...
Talvez movida pela insana dor que a rejeição cruel me fez sentir, encontrei forças para confessar: — E eu quero que você seja...
Não pude desvendar o olhar que Pietra me lançou. Uma infinidade de coisas bailando entre nós, indefiníveis nas mentes, nos espíritos. Sem que em nenhum momento nossos corpos se afastassem ou parassem o movimento contínuo.
Estranha e surpreendentemente, ela não se recusou, muito menos resistiu.
Passou a língua pelos lábios, e com um movimento muito mais carinhoso do que lascivo, fez o que pedi.
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Elas contam
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Longa carta para Mila
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