Descrição do produto
Frente e verso
Visões da lesbianidade
Lúcia Facco, Laura Bacellar e Hanna Korich
Editora Brejeira Malagueta
280 páginas
18x12 cm
"Hoje terminei de ler Frente e Verso. Superou minhas expectativas. Simplesmente A-M-E-I! Sorri, Gargalhei, refleti e me emocionei.
Quando percebi que havia lido a última página fiquei com um estranho gostinho de quero mais. Pena que acabou. Se houvessem outros, com certeza eu continuaria lendo.
De todos os artigos, meu favorito é A Igreja das Lésbicas. Me senti vingada. Depois de sofrer uma vida com o falatório dos (supostos) religiosos, foi interessante imaginar a inversão de papéis, conosco tentando abrir-lhes os olhos. Meus parabéns às três autoras."
Priscila O., Carapicuiba - SP
"Acabei de ler Frente e Verso e adorei! Devorei rapidinho. As crônicas estão fantásticas: sensíveis mas ao mesmo tempo politizadas. Parabéns às autoras!"
Isabel Amora
Três lésbicas para lá de assumidas fazem comentários sobre uma série de temas importantes para mulheres homossexuais, começando com comportamento e terminando em política.
Veja quem são as autoras:
Lúcia Facco é carioca, graduada em Letras (Português-Francês), especialista e mestre em Literatura Brasileira, doutora em Literatura Comparada pela UERJ, crítica literária e escritora. É autora de As guardiãs da magia, publicado pela Editora Malagueta em 2008; Era uma vez um casal diferente, sua tese de doutorado sobre homofobia na literatura infantil, publicada pela Summus em 2009; o conto “Diário”, publicado na coletânea de contos Todos os sentidos: contos eróticos de mulheres, CL Edições Autorais, 2003, ganhador do Prêmio Alejandro Cabassa da União Brasileira de Escritores de melhor livro de contos do ano; As heroínas saem do armário: literatura lésbica contemporânea, publicado em 2004 pelas Edições GLS, ganhador do Prêmio Arco-Íris de Direitos Humanos na categoria Cultura-Literatura; Lado B: histórias de mulheres, livro de contos publicado em 2006 pelas Edições GLS; O conto “São Tomé das Letras”, publicado na coletânea de contos Elas contam, publicada em 2006 pela Editora Corações e Mentes, tendo sido também organizadora deste livro.
Laura Bacellar é escritora e editora de livros, atuando em prol da visibilidade lésbica desde 1994. Desenvolve um trabalho com novos autores através do site Escreva seu livro, tendo publicado Escreva seu livro – guia prático de edição e publicação (São Paulo, Mercuryo, 2001). É pioneira na difusão de cultura para minorias sexuais, tendo sido uma das coordenadoras do grupo exclusivamente de mulheres Umas & Outras, em São Paulo; tendo fundado o selo Edições GLS, que dirigiu por seis anos; e sendo uma das sócias da editora Brejeira Malagueta, a primeira editora de livros da América Latina dedicada especificamente às mulheres homossexuais. É autora de variadas obras, desde infantis até adultas, inclusive O mercado gls, em co-autoria com Franco Reinaudo (São Paulo, Ideia & Ação, 2008) e A mãe possível – os caminhos do xamanismo para dissolver a culpa da mãe que não é perfeita, em co-autoria com Carminha Levy (São Paulo, Ground, 2010)
Hanna Korich nasceu em são Paulo em 21 de abril de 1957. É advogada e graduada em Comunicação Social com especialização em Rádio e TV. Fez parte do Conselho de Atenção à Diversidade Sexual do município de São Paulo representando as lésbicas, é colunista do site Dykerama e produtora e roteirista do programa de tv por internet As Brejeiras. Junto com um grupo de mulheres fundou a editora Brejeira Malagueta em 2008, a única editora lésbica da América Latina. Este é seu primeiro livro.
Sumário
Frente e verso – Lúcia Facco
Lésbicas só pela internet – Laura Bacellar
Ana Paula Arósio no cinema – Hanna Korich
A pioneira Cassandra Rios – Lúcia Facco
Imaginação versus vivência – Laura Bacellar
A papisa da literatura lésbica – Hanna Korich
O poço da solidão – Lúcia Facco
A primeira cena lésbica – Laura Bacellar
Gays e lésbicas nas novelas – Hanna Korich
O perigo de uma história única – Lúcia Facco
Berlim, capital gay – Laura Bacellar
Las hermanas uruguayas – Hanna Korich
Literatura lésbica na internet – Lúcia Facco
Marcas da literatura lésbica – Laura Bacellar
No escurinho do cinema – Hanna Korich
Fora dos moldes – Lúcia Facco
Princesas encantadas – Laura Bacellar
Lota & Bishop – Hanna Korich
Preconceito e solidariedade – Lúcia Facco
A igreja das lésbicas – Laura Bacellar
Obama não tem medo – Hanna Korich
Identidade lésbica – Lúcia Facco
Dois caminhos – Laura Bacellar
Homoafetividade e religião – Hanna Korich
Somos máquinas de sexo? – Lúcia Facco
As bissexuais – Laura Bacellar
Mofar dentro do armário faz mal – Hanna Korich
A lésbica diáfana – Lúcia Facco
As lésbicas são diferentes dos gays – Laura Bacellar
Quando será a nossa vez? – Hanna Korich
É mais difícil em cidades pequenas? – Lúcia Facco
Temos obrigação de nos tratar – Laura Bacellar
Camille Paglia e Susan Sontag – Hanna Korich
Homofobia internalizada – Lúcia Facco
Autoestima lésbica – Laura Bacellar
A homofobia de Claudia Jimenez – Hanna Korich
Ditadura gay? – Lúcia Facco
Falta de sensibilidade das marcas – Laura Bacellar
Homofobia não! – Hanna Korich
Casar para quê? – Lúcia Facco
Casar vale a pena? – Laura Bacellar
Casamento homossexual – Hanna Korich
Calcanhoto: nada ficou no lugar – Lúcia Facco
As lésbicas se vestem mal? – Laura Bacellar
Maria Gadú e sua “opção” sexual – Hanna Korich
Mães lésbicas – Lúcia Facco
A palavra “lésbica” – Laura Bacellar
Amor em dose dupla – Hanna Korich
Homossexualidade na adolescência – Lúcia Facco
O reino das mulheres – Laura Bacellar
Família sem violência – Hanna Korich
Sou lésbica mas sou “de família” – Lúcia Facco
Os primeiros livros gays numa Bienal do Livro – Laura Bacellar
Namorada: eis a questão – Hanna Korich
Bolsonaro, Wellington e Maria Gadú – Lúcia Facco
São Paulo em 2050 – Laura Bacellar
Fico emocionada – Hanna Korich
Militância ou grosseria? – Lúcia Facco
Propaganda para lésbicas – Laura Bacellar
A vantagem de ser lésbica – Hanna Korich
Agora eu tenho uma família! – Lúcia Facco
O muito bom e o muito ruim – Laura Bacellar
Antes tarde do que nunca – Hanna Korich
Viciadas em televisão – Laura Bacellar
A homofobia acabou? – Lúcia Facco
3 artigos
O perigo de uma história única
Lúcia Facco
Pesquei, no site da escritora Adriana Lisboa, o vídeo com uma palestra proferida pela escritora nigeriana Chimamanda Adichie, no qual ela fala sobre o perigo de lermos histórias únicas, contadas sempre sob uma determinada perspectiva. Como um exemplo, ela comenta que os africanos, na interpretação de muitas pessoas, seriam sempre indivíduos com roupas coloridas e curiosas, que desconhecem músicas além dos sons tribais.
Tenho um amigo que se bate contra a ideia, compartilhada pela maioria dos brasileiros, de que a região Norte do Brasil não passa de uma grande floresta onde vivem índios e podem-se contrair todos os tipos de doenças tropicais. Ele estuda um grande escritor chamado Dalcídio Jurandir, nascido na ilha de Marajó, e produtor de uma escrita prolífica e sofisticada.
Chimamanda Adichie nos faz ver que o problema de se escrever, ou contar, uma única história sempre, repetidamente, é que incutimos na cabeça das pessoas a ideia de que aquela é a única verdade. Isso aconteceu com a literatura feminina. Durante muito tempo, as mulheres não produziam textos literários ou jornalísticos. Aliás, elas sequer sabiam ler. Tocar piano, bordar e abrir as pernas para gerar filhos para os maridos era o que se esperava de uma “boa esposa”.
Com o passar dos anos, graças a mulheres como Nísia Floresta, Ercília Nogueira Cobra, Maria Benedita Bormann, entre outras pioneiras na escrita feminina, a voz das mulheres começou a ser ouvida. Falta muito, é certo. Basta vermos quão poucas cadeiras da Academia Brasileira de Letras foram ou são ocupadas por mulheres.
No entanto, as mulheres, embora não tivessem voz, não tinham sua existência negada. Elas, apesar de ocuparem o espaço privado e permanecerem confinadas em suas casas, eram vistas como seres sociais.
O mesmo não ocorreu com @s homossexuais. Durante séculos, as pessoas não-heterossexuais foram invisíveis para a sociedade. Até hoje a literatura ainda é predominantemente hétero, pois a esmagadora maioria de textos produzidos traz a voz desta maioria.
No meu livro Era uma vez um casal diferente: a temática homossexual na educação literária infanto-juvenil, eu comento que o nosso sistema social só aceita como positiva a categoria heteromasculina. A heterossexualidade é compulsória, por ser a única legítima; e todos os que não se adequarem a ela são, necessariamente, excluídos, se forem percebidos, o que não ocorre em muitos casos.
Os não-heterossexuais são uma categoria negativa/opositiva em relação àquela legitimada socialmente. O heterossexual não precisa se explicar, ou sequer se identificar, pois parte-se do pressuposto de que, se um indivíduo não fala nada sobre a sua sexualidade, isso significa que é, naturalmente, heterossexual.
Rick Santos afirma que “a literatura hétero é absolvida da marca de gênero e sexualidade, isto é, ela não tem que provar que é hétero. Por outro lado, a menos que os críticos sejam capazes de apontar (usando para isso a linguagem falocêntrica) códigos e estratégias que fixam e essencializam queerness, esta é ‘apagada’ e descartada. Essa é uma poderosa técnica de simplificação, controle e empobrecimento usada pelo sistema dominante para impor seus limites nas subjetividades e discurso queers.”
Ao lermos um poema que fale da amada, a interpretação fatalmente é de que o eu lírico se trate de um homem. Para escrever uma literatura lésbica, é preciso que fique explícito que as personagens envolvidas no caso de amor são mulheres. O mesmo vale para os gays.
Por sempre termos lido a mesma história, na qual Cinderela se casa com o príncipe, vemos a literatura com olhos heterossexuais. Até homossexuais têm esse “vicio de interpretação”.
Quantas pessoas conseguiram perceber uma homossexualidade implícita na relação de Bentinho e Escobar no livro Dom Casmurro, de Machado de Assis?
Temos sede de ler textos lésbicos com os quais possamos nos identificar, ver nossas histórias, nossa afetividade, nosso sexo ali, preto no branco. No entanto, é importante que esses textos pulem os muros do nosso mundo lésbico e sejam lidos por heterossexuais também, pois que existimos, somos pessoas saudáveis e “normais” nós já sabemos. Resta agora contarmos isso para o mundo heteronormativo, para que chegue o dia em que seja necessário explicitar o sexo biológico dos personagens, ou, melhor ainda: o dia em que isso seja apenas um detalhe.
Berlim, capital gay
Laura Bacellar
Eu sempre soube que Berlim foi uma cidade muito aberta para os gays na década de 1920, com uma vida noturna das mais famosas em toda a Europa. Mas recentemente tive acesso a uma série de dados que me deixaram impressionada.
Desde 1750, quando o kaiser Frederico o Grande proibiu que sua guarda de elite tivesse homens casados e aceitou os muitos relacionamentos gays que ela abrigava, a homossexualidade foi tolerada na capital alemã. Durante todo o século 19 e começo do 20, foi a cidade preferida de gays, bissexuais e transgêneros, conforme escritores como Oscar Wilde e Christopher Isherwood relatam.
Imagine que, nos anos 1920, década considerada “dourada” pela boemia, a cidade tinha nada menos do que seiscentos clubes noturnos lgbt, dos quais 85 eram específicos para lésbicas! Não conheço metrópole que tenha sequer perto disso hoje em dia.
Cerca de cem mil homossexuais viviam em Berlim e havia nada menos do que 25 mil garotos de programa em atividade na capital!
Nos clubes era comum que homens dançassem com homens, mulheres com mulheres, várias delas travestidas com fraques e fumando charutos, muitos deles engalonados em vestidos cintilantes.
Havia de tudo na noite, dos buracos mais sórdidos, onde se pagava para fazer sexo nos fundos, até cabarés chiquérrimos, freqüentados pela mais alta aristocracia, com shows e apresentações diárias.
Um pouco como hoje em alguns círculos, era sinal de elegância conviver com gays e lésbicas e convidá-los às muitas recepções e coquetéis que aconteciam todas as noites nas mansões dos poderosos.
Era comum que mulheres se beijassem em público e homens passeassem juntos em alta velocidade a bordo de carros esportivos sem capota, então o ápice da exibição de alta classe.
Apesar de haver uma lei proibindo atividades homossexuais, a polícia tolerava toda a fauna e flora existente em Berlim, fazendo dela um oásis de tolerância na Europa.
Chocantemente, tudo isso mudou de repente com a ascensão do nazismo.
Como todos sabemos, o novo governo estabeleceu, a partir de 1936, uma perseguição sistemática a todos os que desviavam do modelo de “pureza ariana”.
O infame Parágrafo 175, que proibia a homossexualidade na lei alemã, foi usado como arma para prender, torturar e justificar o envio para os campos de concentração de mais de cem mil gays e lésbicas, que eram identificados com o triângulo rosa no uniforme.
Depois da guerra, a cidade nunca mais foi a mesma, perdendo o brilho de centro cultural e artístico que a caracterizava.
O clima de intolerância fez com que os escritores e artistas que podiam emigrassem para paragens mais simpáticas, muitos tendo ido parar em Hollywood e iniciado a indústria do cinema.
É de fazer pensar a constatação de que uns poucos anos de fascismo, perseguição e violência deram fim a uma cultura de tolerância para com a diversidade sexual que persistia havia mais de um século e meio.
De repente, gays e lésbicas não só não tinham mais onde se encontrar como precisavam se esconder para não serem assassinados.
Não gosto muito de pensar na violência que gays e lésbicas já sofreram, acho muito negativo focar na brutalidade e na discriminação, mas fui levada a refletir nesse dramático exemplo histórico.
Penso assim que a insistência do atual movimento lgbt de visibilidade e garantia dos direitos das minorias sexuais em preto-no-branco, na lei federal, é uma precaução muito saudável e necessária.
A visibilidade e o reconhecimento pela sociedade de que somos cidadãos com direitos iguais é muito diferente da mera tolerância pela nossa existência, como os nazistas tão bem demonstraram.
Convido a leitora a ler mais sobre o fantástico oásis lgbt que Berlim representou e ponderar o quão perigosa pode ser a atitude complacente de gays e lésbicas que não veem necessidade de brigar por direitos, de votar em candidatos homossexuais e transgêneros nas eleições, que dizem ser aceitos sem precisar mostrar quem são e estar satisfeitos com seus bares e boates e namorada/os.
Las hermanas uruguayas
Hanna Korich
Conheci Montevidéu na década de 90, quando passei o último réveillon com a minha mãe, que faleceu no início de 1997. Na época eu era uma lésbica enclosetada (expressão adaptada do inglês in the closet, dentro do armário), por isso sequer tive a ousadia de procurar saber se havia algum livro com temática lésbica no Uruguai. Tenho quase certeza de que eu não encontraria nada nas livrarias por lá, e olhe que tem muitas!
A capital uruguaia é encantadora, pequena, charmosa e sossegada, às margens do grandioso rio da Prata. Apesar de uma legislação mais avançada para os homossexuais, considerando que em 2009 o Uruguai se tornou o primeiro país latino-americano a permitir a adoção de crianças por casais de gays e lésbicas, além de conceder a união gay através da regra do concubinato e o ingresso dos homossexuais nas forças armadas, as dificuldades para nós, lesbianas, por lá são maiores.
Como já estou fora do ropero (armário em espanhol), resolvi ir à caça de livros com temática lésbica quando fiz uma visita mais recente. Pesos uruguaios na carteira, fui ao centro velho, encontrei a livraria mais tradicional da cidade, entrei animada pensando comigo mesma: é hoje! Procurei nas prateleiras e nada! Decidida, perguntei ao vendedor: Onde estão os livros lesbianos? Imediatamente ele me trouxe o único, Muestra de cuentos lesbianos, Ediciones Trilce, que tinha acabado de ser publicado. Indignada, perguntei: Só esse? E Jorge, constrangido e falando baixinho, comentou que “esse tipo de literatura não circula nas livrarias”. Minha sensação foi um mix de revolta e indignação. Reconheço que minha herança judaica me leva ao exagero, agora convenhamos: como assim!?
Inconformada, perguntei a mim mesma onde será que circula esse tipo de literatura na República Oriental do Uruguai. Açougues? Drogarias? Mercados?
É difícil aceitar que em pleno século 21, num país onde a educação é gratuita em todos os níveis de escolaridade, com um padrão de vida dos melhores na América Latina, os livros com temática lésbica se encontrem na marginalidade, escondidos e quem sabe até censurados! Triste para as lésbicas uruguaias e para todas nós, principalmente para aquelas que gostam de livros, como eu.
Mais uma vez o maldito preconceito! Porém nem tudo está perdido. A iniciativa do Colectivo 19 Y Liliana, o grupo que promoveu o concurso em 2009 que resultou na publicação deste livro de apenas 72 páginas, tão expressivo, de contos lésbicos, pode significar uma luz no fim do túnel. O grupo promove ações de visibilidade das mulheres lésbicas, das trans e bissexuais no Uruguai e pelo visto adotou a missão de pensar e atender às necessidades de produtos culturais que falem abertamente da homossexualidade naquele país.
As lésbicas costumam ser invisíveis para a sociedade e os meios de comunicação. Talvez, com esse livro, nossas hermanas uruguayas consigam iniciar seu processo de visibilidade, contribuindo com sua literatura para a tolerância e a diversidade.
Quero voltar a Montevidéu e encontrar uma prateleira lotada de livros publicados por lésbicas com histórias simpáticas e sem preconceito falando de amor e sexo entre mulheres. Não perco a esperança!
Visões da lesbianidade
Lúcia Facco, Laura Bacellar e Hanna Korich
Editora Brejeira Malagueta
280 páginas
18x12 cm
"Hoje terminei de ler Frente e Verso. Superou minhas expectativas. Simplesmente A-M-E-I! Sorri, Gargalhei, refleti e me emocionei.
Quando percebi que havia lido a última página fiquei com um estranho gostinho de quero mais. Pena que acabou. Se houvessem outros, com certeza eu continuaria lendo.
De todos os artigos, meu favorito é A Igreja das Lésbicas. Me senti vingada. Depois de sofrer uma vida com o falatório dos (supostos) religiosos, foi interessante imaginar a inversão de papéis, conosco tentando abrir-lhes os olhos. Meus parabéns às três autoras."
Priscila O., Carapicuiba - SP
"Acabei de ler Frente e Verso e adorei! Devorei rapidinho. As crônicas estão fantásticas: sensíveis mas ao mesmo tempo politizadas. Parabéns às autoras!"
Isabel Amora
Três lésbicas para lá de assumidas fazem comentários sobre uma série de temas importantes para mulheres homossexuais, começando com comportamento e terminando em política.
Veja quem são as autoras:
Lúcia Facco é carioca, graduada em Letras (Português-Francês), especialista e mestre em Literatura Brasileira, doutora em Literatura Comparada pela UERJ, crítica literária e escritora. É autora de As guardiãs da magia, publicado pela Editora Malagueta em 2008; Era uma vez um casal diferente, sua tese de doutorado sobre homofobia na literatura infantil, publicada pela Summus em 2009; o conto “Diário”, publicado na coletânea de contos Todos os sentidos: contos eróticos de mulheres, CL Edições Autorais, 2003, ganhador do Prêmio Alejandro Cabassa da União Brasileira de Escritores de melhor livro de contos do ano; As heroínas saem do armário: literatura lésbica contemporânea, publicado em 2004 pelas Edições GLS, ganhador do Prêmio Arco-Íris de Direitos Humanos na categoria Cultura-Literatura; Lado B: histórias de mulheres, livro de contos publicado em 2006 pelas Edições GLS; O conto “São Tomé das Letras”, publicado na coletânea de contos Elas contam, publicada em 2006 pela Editora Corações e Mentes, tendo sido também organizadora deste livro.
Laura Bacellar é escritora e editora de livros, atuando em prol da visibilidade lésbica desde 1994. Desenvolve um trabalho com novos autores através do site Escreva seu livro, tendo publicado Escreva seu livro – guia prático de edição e publicação (São Paulo, Mercuryo, 2001). É pioneira na difusão de cultura para minorias sexuais, tendo sido uma das coordenadoras do grupo exclusivamente de mulheres Umas & Outras, em São Paulo; tendo fundado o selo Edições GLS, que dirigiu por seis anos; e sendo uma das sócias da editora Brejeira Malagueta, a primeira editora de livros da América Latina dedicada especificamente às mulheres homossexuais. É autora de variadas obras, desde infantis até adultas, inclusive O mercado gls, em co-autoria com Franco Reinaudo (São Paulo, Ideia & Ação, 2008) e A mãe possível – os caminhos do xamanismo para dissolver a culpa da mãe que não é perfeita, em co-autoria com Carminha Levy (São Paulo, Ground, 2010)
Hanna Korich nasceu em são Paulo em 21 de abril de 1957. É advogada e graduada em Comunicação Social com especialização em Rádio e TV. Fez parte do Conselho de Atenção à Diversidade Sexual do município de São Paulo representando as lésbicas, é colunista do site Dykerama e produtora e roteirista do programa de tv por internet As Brejeiras. Junto com um grupo de mulheres fundou a editora Brejeira Malagueta em 2008, a única editora lésbica da América Latina. Este é seu primeiro livro.
Sumário
Frente e verso – Lúcia Facco
Lésbicas só pela internet – Laura Bacellar
Ana Paula Arósio no cinema – Hanna Korich
A pioneira Cassandra Rios – Lúcia Facco
Imaginação versus vivência – Laura Bacellar
A papisa da literatura lésbica – Hanna Korich
O poço da solidão – Lúcia Facco
A primeira cena lésbica – Laura Bacellar
Gays e lésbicas nas novelas – Hanna Korich
O perigo de uma história única – Lúcia Facco
Berlim, capital gay – Laura Bacellar
Las hermanas uruguayas – Hanna Korich
Literatura lésbica na internet – Lúcia Facco
Marcas da literatura lésbica – Laura Bacellar
No escurinho do cinema – Hanna Korich
Fora dos moldes – Lúcia Facco
Princesas encantadas – Laura Bacellar
Lota & Bishop – Hanna Korich
Preconceito e solidariedade – Lúcia Facco
A igreja das lésbicas – Laura Bacellar
Obama não tem medo – Hanna Korich
Identidade lésbica – Lúcia Facco
Dois caminhos – Laura Bacellar
Homoafetividade e religião – Hanna Korich
Somos máquinas de sexo? – Lúcia Facco
As bissexuais – Laura Bacellar
Mofar dentro do armário faz mal – Hanna Korich
A lésbica diáfana – Lúcia Facco
As lésbicas são diferentes dos gays – Laura Bacellar
Quando será a nossa vez? – Hanna Korich
É mais difícil em cidades pequenas? – Lúcia Facco
Temos obrigação de nos tratar – Laura Bacellar
Camille Paglia e Susan Sontag – Hanna Korich
Homofobia internalizada – Lúcia Facco
Autoestima lésbica – Laura Bacellar
A homofobia de Claudia Jimenez – Hanna Korich
Ditadura gay? – Lúcia Facco
Falta de sensibilidade das marcas – Laura Bacellar
Homofobia não! – Hanna Korich
Casar para quê? – Lúcia Facco
Casar vale a pena? – Laura Bacellar
Casamento homossexual – Hanna Korich
Calcanhoto: nada ficou no lugar – Lúcia Facco
As lésbicas se vestem mal? – Laura Bacellar
Maria Gadú e sua “opção” sexual – Hanna Korich
Mães lésbicas – Lúcia Facco
A palavra “lésbica” – Laura Bacellar
Amor em dose dupla – Hanna Korich
Homossexualidade na adolescência – Lúcia Facco
O reino das mulheres – Laura Bacellar
Família sem violência – Hanna Korich
Sou lésbica mas sou “de família” – Lúcia Facco
Os primeiros livros gays numa Bienal do Livro – Laura Bacellar
Namorada: eis a questão – Hanna Korich
Bolsonaro, Wellington e Maria Gadú – Lúcia Facco
São Paulo em 2050 – Laura Bacellar
Fico emocionada – Hanna Korich
Militância ou grosseria? – Lúcia Facco
Propaganda para lésbicas – Laura Bacellar
A vantagem de ser lésbica – Hanna Korich
Agora eu tenho uma família! – Lúcia Facco
O muito bom e o muito ruim – Laura Bacellar
Antes tarde do que nunca – Hanna Korich
Viciadas em televisão – Laura Bacellar
A homofobia acabou? – Lúcia Facco
3 artigos
O perigo de uma história única
Lúcia Facco
Pesquei, no site da escritora Adriana Lisboa, o vídeo com uma palestra proferida pela escritora nigeriana Chimamanda Adichie, no qual ela fala sobre o perigo de lermos histórias únicas, contadas sempre sob uma determinada perspectiva. Como um exemplo, ela comenta que os africanos, na interpretação de muitas pessoas, seriam sempre indivíduos com roupas coloridas e curiosas, que desconhecem músicas além dos sons tribais.
Tenho um amigo que se bate contra a ideia, compartilhada pela maioria dos brasileiros, de que a região Norte do Brasil não passa de uma grande floresta onde vivem índios e podem-se contrair todos os tipos de doenças tropicais. Ele estuda um grande escritor chamado Dalcídio Jurandir, nascido na ilha de Marajó, e produtor de uma escrita prolífica e sofisticada.
Chimamanda Adichie nos faz ver que o problema de se escrever, ou contar, uma única história sempre, repetidamente, é que incutimos na cabeça das pessoas a ideia de que aquela é a única verdade. Isso aconteceu com a literatura feminina. Durante muito tempo, as mulheres não produziam textos literários ou jornalísticos. Aliás, elas sequer sabiam ler. Tocar piano, bordar e abrir as pernas para gerar filhos para os maridos era o que se esperava de uma “boa esposa”.
Com o passar dos anos, graças a mulheres como Nísia Floresta, Ercília Nogueira Cobra, Maria Benedita Bormann, entre outras pioneiras na escrita feminina, a voz das mulheres começou a ser ouvida. Falta muito, é certo. Basta vermos quão poucas cadeiras da Academia Brasileira de Letras foram ou são ocupadas por mulheres.
No entanto, as mulheres, embora não tivessem voz, não tinham sua existência negada. Elas, apesar de ocuparem o espaço privado e permanecerem confinadas em suas casas, eram vistas como seres sociais.
O mesmo não ocorreu com @s homossexuais. Durante séculos, as pessoas não-heterossexuais foram invisíveis para a sociedade. Até hoje a literatura ainda é predominantemente hétero, pois a esmagadora maioria de textos produzidos traz a voz desta maioria.
No meu livro Era uma vez um casal diferente: a temática homossexual na educação literária infanto-juvenil, eu comento que o nosso sistema social só aceita como positiva a categoria heteromasculina. A heterossexualidade é compulsória, por ser a única legítima; e todos os que não se adequarem a ela são, necessariamente, excluídos, se forem percebidos, o que não ocorre em muitos casos.
Os não-heterossexuais são uma categoria negativa/opositiva em relação àquela legitimada socialmente. O heterossexual não precisa se explicar, ou sequer se identificar, pois parte-se do pressuposto de que, se um indivíduo não fala nada sobre a sua sexualidade, isso significa que é, naturalmente, heterossexual.
Rick Santos afirma que “a literatura hétero é absolvida da marca de gênero e sexualidade, isto é, ela não tem que provar que é hétero. Por outro lado, a menos que os críticos sejam capazes de apontar (usando para isso a linguagem falocêntrica) códigos e estratégias que fixam e essencializam queerness, esta é ‘apagada’ e descartada. Essa é uma poderosa técnica de simplificação, controle e empobrecimento usada pelo sistema dominante para impor seus limites nas subjetividades e discurso queers.”
Ao lermos um poema que fale da amada, a interpretação fatalmente é de que o eu lírico se trate de um homem. Para escrever uma literatura lésbica, é preciso que fique explícito que as personagens envolvidas no caso de amor são mulheres. O mesmo vale para os gays.
Por sempre termos lido a mesma história, na qual Cinderela se casa com o príncipe, vemos a literatura com olhos heterossexuais. Até homossexuais têm esse “vicio de interpretação”.
Quantas pessoas conseguiram perceber uma homossexualidade implícita na relação de Bentinho e Escobar no livro Dom Casmurro, de Machado de Assis?
Temos sede de ler textos lésbicos com os quais possamos nos identificar, ver nossas histórias, nossa afetividade, nosso sexo ali, preto no branco. No entanto, é importante que esses textos pulem os muros do nosso mundo lésbico e sejam lidos por heterossexuais também, pois que existimos, somos pessoas saudáveis e “normais” nós já sabemos. Resta agora contarmos isso para o mundo heteronormativo, para que chegue o dia em que seja necessário explicitar o sexo biológico dos personagens, ou, melhor ainda: o dia em que isso seja apenas um detalhe.
Berlim, capital gay
Laura Bacellar
Eu sempre soube que Berlim foi uma cidade muito aberta para os gays na década de 1920, com uma vida noturna das mais famosas em toda a Europa. Mas recentemente tive acesso a uma série de dados que me deixaram impressionada.
Desde 1750, quando o kaiser Frederico o Grande proibiu que sua guarda de elite tivesse homens casados e aceitou os muitos relacionamentos gays que ela abrigava, a homossexualidade foi tolerada na capital alemã. Durante todo o século 19 e começo do 20, foi a cidade preferida de gays, bissexuais e transgêneros, conforme escritores como Oscar Wilde e Christopher Isherwood relatam.
Imagine que, nos anos 1920, década considerada “dourada” pela boemia, a cidade tinha nada menos do que seiscentos clubes noturnos lgbt, dos quais 85 eram específicos para lésbicas! Não conheço metrópole que tenha sequer perto disso hoje em dia.
Cerca de cem mil homossexuais viviam em Berlim e havia nada menos do que 25 mil garotos de programa em atividade na capital!
Nos clubes era comum que homens dançassem com homens, mulheres com mulheres, várias delas travestidas com fraques e fumando charutos, muitos deles engalonados em vestidos cintilantes.
Havia de tudo na noite, dos buracos mais sórdidos, onde se pagava para fazer sexo nos fundos, até cabarés chiquérrimos, freqüentados pela mais alta aristocracia, com shows e apresentações diárias.
Um pouco como hoje em alguns círculos, era sinal de elegância conviver com gays e lésbicas e convidá-los às muitas recepções e coquetéis que aconteciam todas as noites nas mansões dos poderosos.
Era comum que mulheres se beijassem em público e homens passeassem juntos em alta velocidade a bordo de carros esportivos sem capota, então o ápice da exibição de alta classe.
Apesar de haver uma lei proibindo atividades homossexuais, a polícia tolerava toda a fauna e flora existente em Berlim, fazendo dela um oásis de tolerância na Europa.
Chocantemente, tudo isso mudou de repente com a ascensão do nazismo.
Como todos sabemos, o novo governo estabeleceu, a partir de 1936, uma perseguição sistemática a todos os que desviavam do modelo de “pureza ariana”.
O infame Parágrafo 175, que proibia a homossexualidade na lei alemã, foi usado como arma para prender, torturar e justificar o envio para os campos de concentração de mais de cem mil gays e lésbicas, que eram identificados com o triângulo rosa no uniforme.
Depois da guerra, a cidade nunca mais foi a mesma, perdendo o brilho de centro cultural e artístico que a caracterizava.
O clima de intolerância fez com que os escritores e artistas que podiam emigrassem para paragens mais simpáticas, muitos tendo ido parar em Hollywood e iniciado a indústria do cinema.
É de fazer pensar a constatação de que uns poucos anos de fascismo, perseguição e violência deram fim a uma cultura de tolerância para com a diversidade sexual que persistia havia mais de um século e meio.
De repente, gays e lésbicas não só não tinham mais onde se encontrar como precisavam se esconder para não serem assassinados.
Não gosto muito de pensar na violência que gays e lésbicas já sofreram, acho muito negativo focar na brutalidade e na discriminação, mas fui levada a refletir nesse dramático exemplo histórico.
Penso assim que a insistência do atual movimento lgbt de visibilidade e garantia dos direitos das minorias sexuais em preto-no-branco, na lei federal, é uma precaução muito saudável e necessária.
A visibilidade e o reconhecimento pela sociedade de que somos cidadãos com direitos iguais é muito diferente da mera tolerância pela nossa existência, como os nazistas tão bem demonstraram.
Convido a leitora a ler mais sobre o fantástico oásis lgbt que Berlim representou e ponderar o quão perigosa pode ser a atitude complacente de gays e lésbicas que não veem necessidade de brigar por direitos, de votar em candidatos homossexuais e transgêneros nas eleições, que dizem ser aceitos sem precisar mostrar quem são e estar satisfeitos com seus bares e boates e namorada/os.
Las hermanas uruguayas
Hanna Korich
Conheci Montevidéu na década de 90, quando passei o último réveillon com a minha mãe, que faleceu no início de 1997. Na época eu era uma lésbica enclosetada (expressão adaptada do inglês in the closet, dentro do armário), por isso sequer tive a ousadia de procurar saber se havia algum livro com temática lésbica no Uruguai. Tenho quase certeza de que eu não encontraria nada nas livrarias por lá, e olhe que tem muitas!
A capital uruguaia é encantadora, pequena, charmosa e sossegada, às margens do grandioso rio da Prata. Apesar de uma legislação mais avançada para os homossexuais, considerando que em 2009 o Uruguai se tornou o primeiro país latino-americano a permitir a adoção de crianças por casais de gays e lésbicas, além de conceder a união gay através da regra do concubinato e o ingresso dos homossexuais nas forças armadas, as dificuldades para nós, lesbianas, por lá são maiores.
Como já estou fora do ropero (armário em espanhol), resolvi ir à caça de livros com temática lésbica quando fiz uma visita mais recente. Pesos uruguaios na carteira, fui ao centro velho, encontrei a livraria mais tradicional da cidade, entrei animada pensando comigo mesma: é hoje! Procurei nas prateleiras e nada! Decidida, perguntei ao vendedor: Onde estão os livros lesbianos? Imediatamente ele me trouxe o único, Muestra de cuentos lesbianos, Ediciones Trilce, que tinha acabado de ser publicado. Indignada, perguntei: Só esse? E Jorge, constrangido e falando baixinho, comentou que “esse tipo de literatura não circula nas livrarias”. Minha sensação foi um mix de revolta e indignação. Reconheço que minha herança judaica me leva ao exagero, agora convenhamos: como assim!?
Inconformada, perguntei a mim mesma onde será que circula esse tipo de literatura na República Oriental do Uruguai. Açougues? Drogarias? Mercados?
É difícil aceitar que em pleno século 21, num país onde a educação é gratuita em todos os níveis de escolaridade, com um padrão de vida dos melhores na América Latina, os livros com temática lésbica se encontrem na marginalidade, escondidos e quem sabe até censurados! Triste para as lésbicas uruguaias e para todas nós, principalmente para aquelas que gostam de livros, como eu.
Mais uma vez o maldito preconceito! Porém nem tudo está perdido. A iniciativa do Colectivo 19 Y Liliana, o grupo que promoveu o concurso em 2009 que resultou na publicação deste livro de apenas 72 páginas, tão expressivo, de contos lésbicos, pode significar uma luz no fim do túnel. O grupo promove ações de visibilidade das mulheres lésbicas, das trans e bissexuais no Uruguai e pelo visto adotou a missão de pensar e atender às necessidades de produtos culturais que falem abertamente da homossexualidade naquele país.
As lésbicas costumam ser invisíveis para a sociedade e os meios de comunicação. Talvez, com esse livro, nossas hermanas uruguayas consigam iniciar seu processo de visibilidade, contribuindo com sua literatura para a tolerância e a diversidade.
Quero voltar a Montevidéu e encontrar uma prateleira lotada de livros publicados por lésbicas com histórias simpáticas e sem preconceito falando de amor e sexo entre mulheres. Não perco a esperança!
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