Descrição do produto
A arte de perder
Michael Slede
Editora Leya
320 páginas
16x23 cm
Entrevista do autor à Folha de S. Paulo em 8 de julho de 2011 por Fábio Victor
Michael Sledge recria caso entre Elizabeth Bishop e brasileira Lota de Macedo Soares
Destaque da primeira mesa de hoje da Flip, ao lado argentino Andrés Neuman, o americano Michel Sledge não tem interesse particular por política brasileira, mas devorou dois volumes de uma biografia do líder udenista Carlos Lacerda. Tudo para poder contar melhor o célebre caso de amor entre a poeta americana Elizabeth Bishop e a urbanista brasileira Lota de Macedo Soares, transformado por ele no romance A Arte de Perder, lançado agora no Brasil pela Leya.
"Sou provavelmente uma das poucas pessoas no mundo que leram os dois volumes da biografia de Lacerda", brinca Sledge em entrevista à Folha.
Lota era amiga de Lacerda e foi nomeada pelo então governador do Estado da Guanabara para comandar a criação do Parque do Aterro do Flamengo. O autor fez pesquisas em livros e periódicos e veio ao Brasil conhecer o universo das duas no país, mas diz que as cartas de Bishop foram a centelha do romance.
"São um relato incrível, comovente e engraçado da vida de Elizabeth. A primeira vez que as li não consegui parar, e foi naquele momento que a ideia de escrever o esse romance tomou conta de mim", revela. Sledge se atém especialmente à complexa teia psicológica do amor intenso e às vezes doentio entre elas. Constrói uma narrativa envolvente e verossímil e cria entrechos e diálogos às vezes bonitos, mas por outras pueris e piegas. "Todos os fatos são reais, e todos os sentimentos são imaginados", explica ele.
Embora bem executada, a ideia não é de todo original. A brasileira Carmem de Oliveira já escrevera o seu Flores Raras e Banalíssimas (Rocco), que será adaptado para o cinema por Bruno Barreto. O filme se chamará A Arte de Perder, o mesmo título do livro de Sledge -- a produção cinematográfica batizou antes. É a tradução para o português do título de um dos poemas mais famosos de Bishop, "One Art". A Leya, que originalmente pensava em intitular o romance "Quanto Mais Lhe Devo", tradução literal do título americano ("The More I Owe You") -- por sua vez baseado num soneto de Camões que Bishop dedicou a Lota --, resumiu-se a informar que mudou por "decisão editorial apenas".
*Folha - Seu romance é baseado em fatos reais e é muito verossímil. Quanto há de ficção nos fatos descritos? E quanto há de ficção nos diálogos?
* Michael Sledge - Costumo dizer que todos os fatos são reais, e todos os sentimentos são imaginados. Praticamente todos os eventos e as pessoas no livro são baseadas no que a própria Bishop viveu e escreveu. Fiz o máximo de pesquisa possível para para tentar entender não apenas a vida dela, mas também os personagens, a cultura e a política do Brasil nos anos 1950 e 1960. Seus dias com Lota em Samambaia [sítio na região de Petrópolis], e o envolvimento de Lota nos acontecimentos políticos e culturais daquela época foram todos baseados em fatos. Esses eventos reais a política turbulenta, os políticos e artistas que orbitavam em torno delas -- foram tão fascinantes que eu não precisei fazer nada.
O mesmo vale sobre a história pessoal de Bishop, que foi verdadeiramente terrível: seu pai morreu quando ela era criança, sua mãe foi internada num manicômio, ela foi criada por parentes ao longo da infância. Enfrentou o alcoolismo e problemas de saúde por toda a vida. Há muito menos publicado sobre o começo da vida de Lota. Baseei o livro na história, mas o usei como uma oportunidade para ir mais fundo nas personagens das duas mulheres e na relação entre elas. A vida privada delas e como elas falavam entre si não estão documentadas, e foi aí que eu fiquei livre para vagar, ficcionalmente falando.
Qual foi sua principal fonte de informação: cartas (quantas e quais você pesquisou?), entrevistas (quantas você fez?), pesquisa em jornais, periódicos e livros...?
Em primeiro lugar, as cartas reunidas. Elas são um relato incrível, comovente e engraçado da vida de Elizabeth, de seu trabalho, lugares em que viveu, amizades, e especialmente, o Brasil. A primeira vez que as li não consegui parar, e foi naquele momento que a ideia de escrever o esse romance tomou conta de mim. Há várias biografias que também são úteis, e especialmente um livro maravilhoso de entrevistas com pessoas que conheceram Elizabeth ao longo da vida dela. Foi o único lugar que pude ouvir a voz de Mary Morse, a amante que Lota meio que expulsou de casa quando Elizabeth chegou, mas que se manteve por perto pelos 20 anos seguintes como parte da vida delas. Mary sempre me fascinou e me intrigou eu a considero uma das figuras mais interessantes nessa história toda. Finalmente, tentei ler sobre política e arte brasileiras, e evidentemente sobre arquitetura moderna daquele período sou provavelmente uma das poucas pessoas no mundo que leu os dois volumes da biografia de Carlos Lacerda.
Você admitiu que usou no livro trechos de cartas e diários de Bishop. Como dosou as palavras dela com as suas? E como discernir o texto dela do seu?
No final, usei muito pouco das palavras dela, embora no início as tenha usado para me ajudar a fixar a voz dela, e então aos pouco as fui eliminando. Agora elas aparecem apenas aqui e ali, um trecho ou frase. Mas terminei achando que usei muito, porque me baseei tão fortemente nas cartas, mas principalmente para entrar no ritmo do mundo interior dela e de como ela se expressava era muito divertida em qualquer assunto cotidiano. Uma ou duas vezes eu cito as cartas dela diretamente, ou um poema, ou um ensaio; mas isso é quando tento tratar diretamente de seu processo de escrita.
Escrevi uma reportagem recentemente mostrando que a Casa Mariana de Bishop em Ouro Preto (MG) [última morada de poeta no Brasil] está à venda. E quanto à casa de Samambaia? Ainda existe? Você esteve em Petrópolis e em Ouro Preto?
Até onde sei, a casa de Samambaia ainda está lá, embora eu tenha escutado que ao longo dos anos tenha sofrido várias intervenções por parte dos donos, e que não seria mais do jeito de Lota. Quando Elizabeth e Lota viveram lá, era praticamente a única casa ao lado da montanha, e agora, estranhamente, é apenas mais uma entre várias casas de temporada nos arredores de Petrópolis. Eu lembro de quando fui visitar a casa. Estava chovendo e eu fiquei rodando num táxi que estava perdido, ele não sabia onde ficava a casa, então eu avistei a montanha que eu já tinha visto em milhares de fotografias, e disse a ele para me deixar ali. Segui a montanha num tipo de êxtase antecipado e subi uma colina extremamente íngreme, e lá no alto estava ela, a casa de Lota. Mas eu não entrei. Eu não queria vê-la por dentro. Aconteceu o mesmo com a Casa Mariana e com o apartamento do Leme. Eu fiquei do lado de fora em todos, querendo imaginar os espaços interiores em vez de vê-los, exatamente como quis imaginar, tanto quanto possível, os mundos interiores das mulheres que viveram naquelas casas.
O texto sobre Brasília publicado no capítulo 19 foi transcrito do livro que Bishop escreveu sobre o Brasil para a Time Life [e depois renegou, pois avaliou que editaram ideologicamente]?
É um capítulo estranho e de que gosto, porque estava tentando dramatizar a relação de Elizabeth com a sua escrita e com o Brasil sem ter que escrever uma cena dela se descabelando na escrivaninha e jogando fora todos os seus rascunhos. Depois que já estava vivendo no Brasil por mais ou menos dez anos, ela foi contratada para escrever o livro da Time Life; ela queria fazer um retrato balanceado do país, mas também realçar a beleza requintada que tanto a extasiara, enquanto seus editores da Time Life preferiam uma propaganda da guerra fria de um país cheio de nativos sorridentes e sem comunismo. O capítulo que você menciona é o esforço dela para escrever sobre Brasília, cuja construção ela e Lota consideravam ser um desperdício de dinheiro que poderia ter sido investido em serviços humanos básicos. Meu capítulo ficcional é um híbrido do que foi publicado na Time Life, um trecho de um ensaio que ela escreveu sobre Brasília e que nunca foi publicado e algo que eu mesmo acrescentei. A propósito, ela recebeu US$ 10 mil pelo livro, mais dinheiro do que ela conseguiu em qualquer outro trabalho de escrita em toda sua vida.
Quais as principais diferenças entre seu livro e o romance Flores Raras e Banalíssimas, de Carmem Oliveira [também sobre o romance de Lota e Bishop]?
O livro de Carmem Oliveira me foi muito útil porque tem bastante informação sobre Lota que não se encontra em nenhum outro lugar, especialmente sobre o trabalho dela no parque [do Aterro do Flamengo]. Mas, embora use alguns elementos romanescos, como diálogos, eu não o vejo [o livro de Carmem] como romance, mas como biografia. É baseado em fontes factuais e entrevistas, pelo menos é essa minha compreensão, muito mais do que na imaginação do autor. De certo modo, meu livro é o inverso. Eu estava mais interessado nas parte do mundo privado delas que não estavam documentadas, e embora eu use elementos factuais pra enquadrar a história, esperava imaginar o que não era sabido a emoção, os ritmos, o dar e receber, a longa história dessas duas almas complicadas construindo uma vida juntas.
O que achou do título brasileiro, "A Arte de Perder" (tradução do título de um dos poemas mais famosos de Bishop, "One Art"), em vez de "Quanto Mais Lhe Devo", tradução literal do título americano ("The More I Owe You") e primeira opção considerada pela editora Leya?
O título americano tem significado particular para mim porque vem da dedicatória de Elizabeth a Lota no seu livro Questions of Travel, de um soneto de Camões. "(...) O dar-vos quanto tenho e quanto posso/ Que quanto mais vos pago, mais vos devo." É uma dedicatória que achei incrivelmente comovente; para mim, significa que para Elizabeth o maior presente que Lota lhe deu foi a oportunidade de amar com todo o seu ser. Isso realmente formou o núcleo do que eu esperava escrever sobre --que, apesar de sua história envolver grandes tragédias, ainda acho uma história de amor triunfante. Então no começo eu senti que o título brasileiro enfatizou a perda, em vez do ganho. Mas, por outro lado, é tomado daquele que é sem dúvida o poema mais famoso de Elizabeth, "One Art", sobre a devastação, e a sobrevivência de uma enorme perda, e isso também é algo poderoso e belo relacionado a este romance.
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