As lésbicas

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Mitos e verdades
Stéphanie Arc
Edições GLS
132 páginas

Livro interessante e informativo, dirigido a leitoras que desejem munir-se de uma atitude crítica. A autora faz um levantamento das ideias preconcebidas sobre lesbianismo que circulam na cultura ocidental e as comenta à luz de informações recentes isentas de preconceito.

As lésbicas

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Mitos e verdades
Stéphanie Arc
Edições GLS
132 páginas
14x21 cm

A amplitude dos assuntos tratados nessa obra é grande, indo desde noçõe errôneas sobre identidade é fácil reconhecer uma lésbica; elas na verdade gostariam de ser homens passando pelas causas da homossexualidade elas sofreram abusos sexuais na infância; elas nunca se relacionaram com um homem decente até concepções sociais lésbicas são mais aceitas que gays; há menos lésbicas do que gays.
Stéphanie comenta cada preconceito com grande riqueza de citações e referências, uma delícia para quem aprecia obras cultas. Para explicar de onde surgiu a noção de que as lésbicas têm uma aparência característica (e masculinizada), por exemplo, ela cita o clichê de caminhoneira presente em obras de entretenimento dos anos 1950, as várias lésbicas famosas que na década de 1920 desfilavam de smoking com uma atitude predatória bem masculina em reuniões de intelectuais em Paris e Berlim, as opiniões dos primeiros estudiosos do comportamento sexual, como Kraft-Ebbing.
Depois ela analisa que esta escolha por uma aparência diferenciada pode ter tido razões históricas de quebra de padrões e facilidade de reconhecimento, mas explica com clareza a diferença entre comportamento trasgênero que implica uma preferência por atitudes e roupas do outro sexo e homossexual uma orientação do desejo que não necessariamente acarreta uma mudança de identidade de gênero.
O livro inteiro faz essa interessante mistura de conceitos populares errôneos, as causas para que tenham se difundido, exemplos históricos e literários, o que se sabe hoje a respeito e dados atuais que comprovam a nova interpretação. Uma obra de consulta e refeância preciosíssima!

Sobre a autora

Nascida em 1976, autora e jornalista, Stéphanie Arc formou-se em Filosofia Moral e Política pela Sorbonne-Paris. Membro da associação SOS Homofobia, dedica parte de suas pesquisas à lesbofobia e às representações da homossexualidade feminina na sociedade ocidental. Com seus escritos e intervenções, participa, na França e no exterior, da luta contra a homofobia e a discriminação.

Sumário

Prólogo | 9
Prefácio | 11
1 Retrato das lésbicas | 15
Elas são facilmente reconhecíveis | 15
Entre mulheres, não se trata exatamente de sexo | 22
São meninos frustrados | 28
As lésbicas atiçam a fantasia masculina | 36
Elas reivindicam sua homossexualidade | 44

2 Origens da homossexualidade | 51
É de nascença | 51
Elas deveriam se tratar | 57
É uma escolha feminista | 64
Elas não encontraram o homem certo | 71
Elas foram vítimas de violência sexual | 77
É culpa dos pais | 83

3 Lésbicas e sociedade | 91
Existem mais gueis do que lésbicas | 91
A homossexualidade feminina é mais bem aceita
do que a masculina | 98
As lésbicas preferem se isolar | 105
Elas não deveriam ter filhos | 110
Não se é feliz quando se é lésbica | 117

Conclusão | 125
Referências bibliográficas (para saber mais) | 127


Prólogo

LÉSBICAadj. E subst. fem.: relativo aos amores da poetisa Safo (fim do século VII, início do século VI a.C.) de Lesbos, ilha do Mar Egeu (Mitilene). Mulher que sente desejo sexual por mulheres.
Quando o equivalente do termo em francês foi reconhecido, em 1549, seu masculino designava um uranista, amante de um homem.
Somente durante o Renascimento as mulheres que se amam começaram a ser nomeadas na França. Até meados do século XIX, o termo mais empregado foi tríbade, do grego esfregar, designando uma técnica sexual. Costuma-se coincidir a publicação de As flores do mal, de Baudelaire (1857), com o surgimento de um novo significado da palavra lésbica. Pois enquanto o autor chamava as lésbicas de mulheres malditas, foi condenado em um ruidoso processo por ultraje à moral pública. A partir de então, o uso da expressão se difundiu, fortemente carregado de erotismo. No final do século XIX, a medicina
criou o termo homossexual, que entrou no suplemento do Novo Larousse Ilustrado de 1902. As lésbicas da belle époque preferiam essa designação carregada de conotações pejorativas às expressões safista ou amazona. Os demais termos em uso como anandrina [ou anândria], uranista, gomorreia, safo, invertida se revelavam ora triviais, ora médicos, ora puro preciosismo.
Só nos anos 1970 as mulheres se apropriaram da palavra lésbica, no bojo dos movimentos feministas. O termo ganhou uma dimensão política, inscrevendo-se na luta contra a hierarquia dos sexos e das sexualidades. As lésbicas não são mulheres, escrevia Monique Wittig em 1980. Esse renascimento positivo se fez acompanhar da emergência de novos modos homossexuais de vida e de uma maior visibilidade dos gueis* e lésbicas. Atualmente, é o termo mais empregado.
 

Trecho

Quer quando as chamamos de "fanchonas" ou de "caminhoneiras", encaramos as lésbicas como meninos frustrados, e as imaginamos empoleiradas em cima de uma moto ou debruçadas sobre o motor de um carro. Se os gueis são cabeleireiros, as lésbicas escolheriam profissões masculinas: atividades arriscadas ou trabalhos técnicos. E essas atividades, assim como as características que atribuímos a elas, seriam indícios de sua personalidade masculina. Resumindo, elas teriam mais afinidade com os homens do que com as mulheres: além de sentir desejo pelo sexo frágil, elas compartilhariam com os homens o temperamento e o modo de pensar.

Essa ideia preconcebida estigmatiza as lésbicas, excluindo-as da categoria "mulher", a pretexto de sua sexualidade. Mas não as inclui na categoria "homem": ela as condena a ser tão somente sub-homens, julgando ridícula sua pretensão aos atributos e funções masculinas. Assim, as lésbicas são condenadas à paródia. Por quê? Para o sociólogo Daniel Welzer-Lang, a sociedade exerce uma forma de discriminação das pessoas às quais atribuímos qualidades -ou defeitos- reconhecidas ao outro sexo (La perus de l'autre en soi [O medo do outro em si], 1994). E ainda hoje ela fustiga aquelas e aquelas que, apesar de não serem homossexuais, não se enquadram nas representações estereotipadas do gênero: os homens - de Marte - devem supostamente ambicionar o poder e valorizar a competitividade, não demonstrar fraqueza nem sensibilidade; as mulheres - de Vênus - em tese privilegiam o amor, a beleza e a comunicação. Elas são sensíveis e amáveis.

Ao naturalizar qualidades psicológicas que na verdade são o quinhão particular, mas que muitas pessoas não ousam expressar, a sociedade justifica a atribuição de papéis em função do sexo e, sobretudo, sua hierarquização. Essas ideologias que pregam a superioridade de um gênero sobre outro (sexismo) e de uma orientação sexual sobre outra (heterossexismo) dão sustentação ao sistema social e organizam o controle dos gêneros. Mesmo que as lutas feministas tenham permitido sacudir essa dominação, que oprime tanto homens quanto mulheres, heterossexuais e homossexuais, ainda é malvisto abandonar as fileiras.

Mas o preconceito não provém só dessa vigilância social. Ele está enraizado na própria construção da identidade homossexual e na ideia de que as lésbicas são "invertidas". Com efeito, a maior parte das sociedades considera que existem dois sexos - e somente dois. E essa diferença biológica implica que o homem e a mulher tenham qualidades e uma sexualidade complementares. Uma mulher é uma mulher porque tem corpo de mulher (incluindo os cromossomos), qualidades femininas e sente desejo por homens. Ao contrário, os que sentem desejo por mulheres são homens ou...parecem ser. E esse é justamente o caso das lésbicas. Pelo menos para as teorias médicas do final do século XIX, baseadas nesse princípio.

Para os médicos, em especial Magnus Hirschfeld (1868-1935), a ideia de que os homossexuais tenham um instinto sexual invertido não basta para explicar sua "patologia". Além disso, eles consideram que toda pessoa homossexual é dotada de traços do outro sexo. Ela pertence a um terceiro sexo, espécie de mistura de dois primeiros, que se situa entre tipos ideais: os homens e as mulheres "absolutos". Estes se distinguem não apenas por uma anatomia sem ambivalência (características sexuais primárias e secundárias coerentes), mas também por uma "masculinidade" ou uma "feminilidade" perfeitas.

Toda ambiguidade física ou moral é então interpretada como sintoma de homossexualidade, e sua presença permite distinguir os invertidos "congênitos" dos "ocasionais". Assim, mede-se o lesbianismo segundo o parâmetro da masculinidade. No final do século XIX, o psiquiatra alemão Krafft-Ebing (1840-1902) chegou inclusive a elaborar uma escala de avaliação: o primeiro designava as mulheres cuja homossexualidade não é detectada, mas correspondem às investidas de lésbicas; o segundo se referia às mulheres que preferem usar roupas masculinas; o terceiro, às que queriam ser homens; o quarto e último definia aquelas cujos órgãos genitais eram o único atributo feminino -quanto ao restante (modo de pensar, sentimentos, ações e aparência), elas foram homens (Psychopathia sexualis, 1886).

Fazendo eco a essas pseudoexplicações, em 1928 foi publicado na Inglaterra um dos mais famosos romances lésbicos, O poço da solidão. Nele, a autora Marguerite Radclyffe-Hall põe em cena Stephen Gordon, uma jovem cuja masculinidade emerge como leitmotiv. Desde a mais tenra infância, Stephen sobe em árvoras, luta com os colegas e detesta vestidos. A idade adulta não muda nada. Ela declara sem meias-palavras que deve ser um rapaz, pois se sente "exatamente como se fosse um". E ela deseja mulheres e gosta delas. De imediato, o romance teve forte repercussão: um mês depois de ser publicado, a imprensa inglesa reagiu indignada. Abriu-se um processo contra o livro, que foi proibido na Inglaterra. Mas a autora se transformou na primeira lésbica alvo da mídia: nos Estados Unidos, sua obra se tornou um best-seller...

 

 

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