O que a bíblia realmente diz....

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Daniel A. Helminiak
144 páginas
Edições GLS

A Bíblia costuma ser usada como arma para discriminar homossexuais, fundamentalistas cristãos tendo o hábito de citar trechos para julgar gays e lésbicas de pecadores. Neste livro, o autor analisa caso por caso as passagens mais utilizadas dessa forma preconceituosa, apresentando seu contexto histórico e o significado real da mensagem bíblica. Muito animador, recomendadíssimo.

O que a bíblia realmente diz....

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Daniel A. Helminiak
144 páginas
Edições GLS
14 x 21 cm

"Muito oportuno, ótimo."
Edson N. F., Olinda-PE

"As palavras do padre Helminiak irão trazer esperança a muitos que se sentem rejeitados por Deus, e seu livro irá ajudar a Igreja a conscientizar-se de que não pode afirmar ser o Corpo de Cristo se deixar aceitar todos aqueles que seriam bem-vindos pelo Cristo."
Reverendo John S. Spong, bispo da Diocese de Newark da Igreja Episcopal

É comum ouvir-se do alto dos púlpitos religiosos que a Bíblia condena a homossexualidade e que esta seria a razão para os homossexuais serem considerados pecadores. No entanto, poucas pessoas de fato lêem as tais passagens como a história de Sodoma e Gomorra e a Epístola aos Romanos com atenção e profundidade.
Nesta obra, o autor, sacerdote ordenado pela Igreja católica com doutorado em teologia pelo Boston College, cita fielmente todos os trechos em que há menção de homossexualidade e analisa seu significado de acordo com os mais recentes estudos históricos. A mensagem que revela é muito diferente da que é normalmente apregoada.


Trecho do capítulo Preocupações com a pureza no Testamento Cristão

O Testamento hebreu proíbe a homogenitalidade por motivos de pureza. O sexo entre homens torna impuros seus praticantes. Quebra um tabu religioso e associa o praticante ao canaanita. As escrituras hebraicas também listam outros mandamentos de pureza, como as abluções nos momentos especificados e a abstenção do consumo de certos alimentos.
O principal exemplo de um mandamento religioso era o da circuncisão de todos os homens. Se o homem não fosse circuncidado, não podia ser considerado judeu. Se não tivesse a marca da religião de Israel em seu próprio corpo, não seria um membro do povo escolhido por Deus.
Mas ninguém pensava que Deus rejeitaria os não-circuncidados, ou que eles não poderiam ser justos e sagrados, ou que não obteriam a aprovação divina. Os profetas de Israel com freqüência louvavam a retidão dos gentios até mesmo quando condenavam os israelitas por abandonar a lei de Deus. Da mesma forma, ninguém pensava que membros de outras religiões fossem obrigados a seguir as leis alimentares da religião judaica, apesar de vários gentios serem reconhecidos como pessoas de bem. Os mandamentos de circuncisão e pureza da lei judaica faziam parte da vida dos judeus. Eles não necessariamente faziam parte de se ser uma pessoa boa, justa e correta perante Deus.


Os ensinamentos de Jesus sobre a pureza

Jesus tinha consciência dessa diferença. Ele sempre deixou claro que ser uma pessoa boa e cumprir os mandamentos da lei judaica não eram a mesma coisa. Também foi bem claro ao afirmar que a única coisa que realmente importa é ser uma boa pessoa. Um dos motivos pelos quais Jesus foi morto deveu-se ao fato de ele ter desafiado a real importância da lei.

Ouvi, e compreendei disse-lhes.
Não é aquilo que entra pela boca que mancha o homem, mas aquilo que sai dele. (...) Aquilo que sai da boca provém do coração, e é isso o que mancha o homem. Porque é do coração que provêm os maus pensamentos, os homicídios, os adultérios, as impurezas, os furtos, os falsos testemunhos, as calúnias. Eis o que mancha o homem. Comer, porém, sem ter lavado as mãos, isso não mancha o homem. (Mateus, 15:10, 18-20)

Foi desta maneira que Jesus rejeitou a importância das leis judaicas sobre a pureza e a falta de limpeza. A única pureza que importava para Jesus era a pureza de coração.


Ser puro de coração

O que esta pureza de coração significa? Algumas pessoas interpretaram isso como o dever de evitar pensamentos sujos. Não se deve ser impuro mentalmente. Claro, sujo e impuro referiam-se a sexo; portanto, não se devia pensar sobre este assunto.
Quanta distorção dos ensinamentos de Jesus! Jesus não estava preocupado com sexo. Ele estava preocupado em ser uma boa pessoa, em ser bom até o mais íntimo.?
Jesus se opunha a demonstrações externas de religiosidade o jejum ? vista de todos, a reza em público para que todos vissem, os grandes donativos na hora da coleta para impressionar os outros. Jesus disse: Guardai-vos de fazer vossas boas obras diante dos homens, para serdes vistos por eles (...) Quando orares, entra no teu quarto, fecha a porta e ora ao teu Pai em segredo (Mateus 6:1, 6). Jesus louvou a viúva que pode contribuir apenas com a menor das moedas na coleta, porque ela a deu de coração (Marcos 12:42-44).
Jesus insistia na necessidade de a virtude vir do coração. Assim, Jesus em Marcos 7:6 cita o profeta Isaías contra todos aqueles preocupados com as abluções rituais: Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim. Quando Jesus prega sobre o perdão, ele afirma que é preciso perdoar os outros de coração (Mateus 18:35). E quando Jesus prega acerca das ofensas sexuais contra outros, diz: Todo aquele que lançar um olhar de cobiça para uma mulher, já adulterou com ela em seu coração (Mateus 5:28). Jesus não se deixava impressionar pelas aparências. Ele olhava no coração.
Resumindo, Jesus disse: Bem-aventurados os corações puros, porque verão a Deus (Mateus 5:8). Para Jesus, os puros de coração verão a Deus mas não aqueles que são puros ou limpos meramente conforme as práticas da lei judaica. Ser uma boa pessoa, honesta, amorosa, justa, delicada, agradecida, pacífica é o que importa diante de Deus. Os mandamentos de pureza da lei não têm mais significado.?
Jesus foi consistente neste ensinamento. Parece que ele o teria aplicado até mesmo ? antiga proibição judaica com relação ao sexo entre homens, conforme veremos no capítulo 8.


As atitudes dos primeiros cristãos com relação ? pureza

Os primeiros seguidores de Jesus tinham esta mesma postura com relação aos requisitos de pureza da lei judaica. O capítulo 15 dos Atos dos Apóstolos assim como diversos outros pontos registra o debate sobre a circuncisão nos primórdios da Igreja. Alguns afirmavam que: Se não vos circuncidais segundo o rito de Moisés, não podeis ser salvos (Atos, 15:1). Mas o conselho dos apóstolos e dos anciãos decretou que a circuncisão não era mais necessária. Assim, a Igreja cristã desde o início rejeitou um mandamento central da lei judaica.
Pedro, o líder dos doze apóstolos, havia chegado a esta mesma conclusão com relação aos animais puros e impuros. Em um sonho, Pedro

viu o céu aberto e descer uma coisa parecida com uma grande toalha que baixava do céu ? terra, segura pelas quatro pontas. Nela havia de todos os quadrúpedes, dos répteis da terra e das aves do céu. Uma voz lhe falou: Levanta-te, Pedro, mata e come. Disse Pedro: De modo algum, Senhor; porque nunca comi coisa alguma profana e impura. Esta voz lhe falou segunda vez: O que Deus purificou não chames tu de impuro. (Atos, 10:11-15)

Logo Pedro percebeu as profundas implicações daquela revelação. Ele a estendeu ? s pessoas, aos gentios, dizendo: Deus me mostrou que nenhum homem deve ser considerado profano ou impuro (Atos, 10:28). Pedro se explicou utilizando o mesmo raciocínio que Jesus empregou: Em verdade reconheço que Deus não faz distinção de pessoas, mas em toda nação lhe é agradável aquele que o temer e fizer o que é justo (Atos, 10:34). O que interessa não é a pureza ritual, não é obedecer aos mandamentos da lei judaica, mas sim a justiça e a correção.
O apóstolo Paulo também defende repetidas vezes o mesmo argumento. Ele escreve: A circuncisão de nada vale, e a incircuncisão de nada vale, o que importa é a observância dos mandamentos de Deus (1 Coríntios, 7:19). E novamente: Estar circuncidado ou incircuncidado de nada vale em Cristo Jesus, mas sim a Fé que opera pela caridade (Gálatas, 5:6).
Repetindo o ensinamento de Jesus, Paulo afirma: Mas é judeu o que o é interiormente, e verdadeira circuncisão é a do coração, segundo o espírito da Lei, e não segundo a letra (Romanos 2:29). Desta maneira, Paulo reinterpreta o significado de se ser o povo escolhido por Deus; a questão passa a ser do coração. Ele afirma com determinação: Sei, estou convencido no Senhor Jesus de que nenhuma coisa é impura em si mesma (Romanos 14:14).
Este ensinamento resume um grande tema da carta de Paulo aos romanos. E, como veremos, Paulo cita os atos homogenitais no início da epístola como prova daquele próprio argumento.?


A homogenitalidade no Testamento cristão

Em que o ensinamento cristão sobre a pureza do coração diz respeito aos atos homogenitais? O único texto nas escrituras hebraicas que fala sobre a homogenitalidade a proíbe mas precisamente porque é impura e não porque fosse errada em si. As escrituras cristãs insistem no argumento segundo o qual a pureza e a impureza não têm importância. A única coisa que importa é se fazemos o bem ou o mal.
Jesus e o Testamento cristão rejeitam a única base bíblica usada para condenar o sexo entre homens. Portanto, não deveríamos esperar nenhuma condenação da homogenitalidade nas escrituras cristãs ou, se houvesse uma condenação, deveríamos esperar que as escrituras revelassem algum novo motivo para ela. Deveríamos esperar que as escrituras cristãs apontassem para algum erro instrínseco na homogenitalidade ou homossexualidade isto é, que mostrassem que ela é nociva, maldosa, destrutiva, desonesta, injusta, ímpia ou algo desse tipo. Ou então deveríamos esperar que os atos entre pessoas do mesmo sexo fossem condenados apenas quando realmente contivessem estes outros erros, somente quando as expressões sexuais forem abusivas, imorais, obscenas ou causarem sofrimento assim como os atos heterossexuais seriam proibidos pelos mesmos motivos.?
Como estas expectativas se enquadram naquilo que o Testamento cristão diz na realidade? Segundo a leitura histórico-crítica, elas se enquadram perfeitamente bem. Não há condenação do sexo homogenital enquanto tal no Testamento cristão, seja devido a preocupações com a pureza ou com qualquer outra coisa. Ao mesmo tempo, o Testamento cristão está preocupado em pronunciar julgamento contra o abuso e a exploração que podem fazer parte dos atos entre pessoas do mesmo sexo. A análise dos textos relevantes apoia estas conclusões.

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