Descrição do produto
Histórias de mulheres
Lúcia Facco
Edições GLS
104 páginas
14x21 cm
Histórias sensíveis, inteligentes, sutis, de mulheres que vivem seus amores por outras mulheres sem alarde e sem culpa. O Lado B dos sentimentos, incomuns mas profundos e autênticos. Da mesma autora de As heroínas saem do armário.
São histórias bem variadas, contada com muita inteligência e um toque de erotismo aberto.Crítica feita por Sérgio Ripardo na Folha Online
Por dia, são lançados 30 livros no Brasil, em média. Haja estante. O número engloba edições pífias, de 3.000 exemplares, que são mais distribuídos com amigos do que vendidos nas livrarias. Nesse universo, há muita escrita ordinária, desperdício de papel e celulose. Em meio ao lixo, também existem algumas pérolas (no bom sentido). É o caso de "Lado B - Histórias de mulheres", um livro de contos sobre os amores e medos das lésbicas (leia trecho), um tema ainda pouco explorado no mercado editorial.
"Tenho sentido uma enorme atração por todo o corpo das mulheres, mas especialmente pela boceta. A minha, como já observei várias vezes, tem vida própria. Ela se manifesta nos momentos mais inadequados. Me fascinam seu cheiro, suas reações, seu sabor. Apesar da minha falta de experiências reais, já me masturbei muito olhando as fotos nas revistas que meus filhos 'santinhos' escondem no fundo do armário", cita trecho do conto "Diário", em que uma senhora escreve "indecências".
Lado B traz 12 contos. O texto é enxuto. As descrições buscam o realismo. Mas há um toque de poesia, explorando um clima de nostalgia, melancolia, algo "retrô". Elas amam demais, sofrem demais e sentem demais, em um mundo de repressões, patriarcal, que ainda silencia, condena e pune o prazer e o amor entre mulheres.
Corajosos, alguns trechos são explícitos --os mais conservadores diriam "pornográficos" ("Gozei imaginando que a penetrava com o meu clitóris, misturando os dois líquidos sem nome, os dois gostos diferentes, formando um terceiro, que depois eu lamberia").
Além do erotismo, a obra fala de maternidade, de amor, de morte, de solidão, de felicidade. Há lésbicas para todos os gostos, contrariando as expectativas do senso comum, que só admite a existência do estilo "caminhoneira" para as chamadas "sapatonas".
O livro surpreende quando narra experiências de mulheres cheias de feminilidade, assumidas ou não, de diferentes perfis (brancas, negras, jovens, velhas, enfim, gente de carne e osso, que pode estar sentada ao seu lado e você nem desconfia de sua homossexualidade --e precisa?!).
Trecho do conto Lado B
Eu devia ter uns cinco anos na época. ... Agora, divagava e remexia na pilha de discos, quando encontrei a tal capa das bailarinas dançando ao som de O Lago dos Cisnes. Amassada, desbotada, mas ainda fascinante. Desta vez olhei com mais atenção as pernas bem delineadas pelos exercícios puxados que os saiotes de tule e as pequeninas coroas de strass brilhante. Sorri. Me emocionei ao ver a foto. Imaginei a música como se a estivesse ouvindo realmente, com todas as notas bem delineadas por um compositor que, dizem, se matou por não poder mostrar seu Lado B.
Trecho do conto Chuva
Eu vi. Ou melhor, eu a vi. Vinha andando com um colega, completamente molhada. A roupa colando no corpo, mas isso eu não vi. Eu vi apenas nascendo, nos cabelos curtos lisos e negros, fios de água que escorriam lentamente pela nuca. Vi o sorriso no rosto vermelho de excitação por estar molhada, por ter subido oito andares pelas escadas, por não saber se todo o sacrifício tinha valido a pena, por não saber se teria aula no meio daquele caos provocado por uma simples chuvarada de verão. Vi tudo isso e senti muitas coisas mais que não consigo descrever.
Ao passar por mim manteve o sorriso, só que direcionado para o meu rosto. Me encarando com aqueles olhos estranhos, amarelos, que pareciam dois faróis altos na penumbra do corredor. Tive um gato persa chamado Orpheu que tinha os olhos exatamente assim: cor de cobre. Articulei algumas palavras completamente desnecessárias. Disse com voz esganiçada: Que chuva, não?. Mais tarde descobri o porquê dessas palavras.
Lembrei de um anúncio de TV, da época em que eu era criança. Era uma rede de postos de gasolina que havia publicado uns folhetos explicando o que fazer em situações de emergência no trânsito. O primeiro volume era sobre como dirigir na chuva. Na TV aparecia uma mulher de óculos, com cara de atrapalhada, dirigindo debaixo da maior chuva. Ela esfregava a mão desesperadamente na parte interna do vidro para tirar o embaçado e comentava com o carona, com a voz que eu reproduzi: Que chuva, não?. As dicas se sucediam, assim como as situações de perigo. Era isso. Eu me senti em situação de perigo. Não sabia bem o motivo, mas sabia que devia abaixar o farol, parar no acostamento, ir embora...
Não fiz nada disso. Continuei ali parada, chupando o cigarro, vendo-a se afastar em slow motion, entrando no banheiro, imagino que para se secar um pouco. Molhada e excitada. Credo! Dizendo assim fica com cara de texto pornográfico!
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