Descrição do produto
Fátima Mesquita
Edições GLS
144 páginas
14x21 cm
"Adorei ter lido, nunca tinha lido antes sobre mulheres assim."
Elisângela R. A., Janaíba-MG
"Super gostoso de ler."
Regina B., Campinas-SP
"Achei muito divertido."
Ana X., Brasília-DF
"Gostei muito, me proporcionou uma leitura deliciosa."
Viviani L., São Paulo-SP
"Leitura agradável e interessante."
Claudia P. M., Planaltina-DF
"É um bom livro, dá para fantasiar e viajar com ele!"
Arlete M., São Paulo-SP
"Simplesmente maravilhoso, quero saber se Fátima Mesquita tem outros livros!"
Rosa Maria C., Niterói-RJ
"É ótimo e não tem linguagem vulgar."
Priscila S., São Paulo-SP
Os contos reunidos neste volume têm uma qualidade inovadora: são histórias de amor entre mulheres brasileiras, contadas como elas de fato acontecem. São jogadoras de basquete, donas de lojas, artistas, médicas e vendedoras que de repente se apaixonam umas pelas outras. Moças tatuadas e certinhas, que andam de moto, a pé, de jipe e em sonhos. São casadas com homens, com mulheres, estão se envolvendo pela primeira vez com outra mulher.
São histórias de amor consumado, feliz, bem vivido, como a literatura brasileira ainda não havia produzido.
Conto Julieta & Julieta
Quando a vi a primeira vez, Ju, não achei nada de diferente ou especial. Na festa, seu marido e você só me pareceram distantes, mas quantos casais depois de dezessete anos de convivência ali, no duro do dia-a-dia, conseguem manter beijinhos e abraços e pequenas gentilezas assim a granel? O que me chamou a atenção naquele dia, na verdade, foi o seu filho: bonito e sadio! E como seus olhinhos de adolescente brilhavam, e como o rosto dele em nada lembrava aquele ar vago e distante que minha filha exibe todo dia dia santo ou não! O fato é que fiquei intrigada. Devia haver uma fórmula, uma mágica, um caminho.
Naquele dia, a gente quase não se falou, lembra-se? Mas quando eu estava no carro, de volta para casa, só com a minha filha, perguntei um pouco sobre o Kiko, e ela me disse que ele era assim e assado e que morava na mesma quadra que a gente, no prédio azul claro, quase na esquina. E como é ? s vezes comum entre pais e filhos aquilo era tudo, assunto encerrado! Achei uma bonita coincidência o fato de vocês moraram assim quase que do lado e passei a prestar mais atenção quando saía para caminhar um pouquinho, quando ia ? padaria, quando dava um pulo no supermercado...
Eu a vi de novo assim, Ju, no supermercado. Você estava vestida com uma calça de linho claro, com uma malha de lã verde, um sapatinho para lá de adequado e as meias combinando com o tom da blusa... Mas como será que essa mulher consegue? Parece impecável! O filho foi tirado de uma propaganda de sucrilhos, e ela anda como se o vento não batesse nela, como se ela não corresse o risco, nunca, de sofrer com o pinga-pinga dos produtos congelados que cismam de se desmanchar em água toda vez que eu toco neles só com as pontas dos dedos para colocá-los dentro do carrinho de compras... E não é só: o marido é bem sucedido, tem uma empresa de alguma coisa ligada a marketing, e o carro dela é lindo, e ela sabe fazer uma terrível mousse de chocolate...
Ju, a segunda vez que a vi foi para mim como uma enxurrada. A sua perfeição total vinha destroçar com a força de uma tempestade o meu olhar ali no espelhinho do carro. E eu chorei, um pouquinho só, mas chorei. Porque de repente minha vida parecia ser o avesso do certo, da sua. Eu estava ali com minha filha quase muda a me perseguir pela casa com as flechas dos olhos. Estava namorando um cara que não era horrível, mas que também não ficaria bem sentado numa fotografia acima da legenda: homem amável. Além do mais, havia o meu emprego, que era declaradamente uma catástrofe! Eu o odiava e vice-versa! E você, pelo que soube naquele primeiro encontro, pelo que havia ouvido de orelhada, você era uma dentista que dedicava apenas as manhãs ao consultório... Tudo tão certinho, tudo tão civilizado.
Hoje, olhando as coisas do lado de cá, depois de tudo, parece até piada! Mas adoro cada segundo da nossa história, meu anjo bonito, adoro! E quando você me ligou naquela segunda, procurando pela Renata, e eu disse que ela não estava e foi desabotoando palavras e mais palavras e a gente acabou conversando por hora e meia e eu fui trabalhar atrasada e você me prometeu um chá no final de semana, quando tudo isso aconteceu, eu já sabia que estava absoluta e irremediavelmente apaixonada. Só que não podia dar esse nome. Então fiquei vagando o resto dos dias, até o chá, com aquele sentimento que não podia ter endereço e que eu tenteava colocar dentro do frasco em que se lia no rótulo: não é nada!
Mas o sussurro lembra-se estava lá, tanto em mim quanto em você. O único problema é que a gente sempre afoga esses barulhos que ecoam aqui dentro. Por quê? Acho que é só para ficar tudo mais bonito e cheiroso quando a gente dá a virada e o encara de frente: aquele sentimento e os seus mil recados...
O chá. Tomei banho. Sorri para o espelho. Passei o fio dental. Penteei duas mil vezes o meu cabelo. O que há, meu Deus, o que há? Essa saia, essa outra, essa calça, muito escura, esse vestido... vou de sandália baixa ou calço o sapato de salto alto? De onde vem esse gemido, essa vontade, esse barulho? Onde está meu colar, meu anel que tem aquele passarinho? Onde estou? Onde está? Caminho devagar. Quase desisto. Depois continuo andando. Chego e falo com o zelador, que está sorrindo, no meio da grama, segurando uma mangueira azul, muito azul, e que molha o lado de lá, aquele canteiro estreito de plantas.
Boa tarde. Eu vim ver a Julieta. No décimo-segundo.
Ele largou a mangueira lá, encharcando um pouco da grama, e veio para cabine. Veio e trouxe junto o sorriso. E gentil, muito solícito mesmo, me perguntou:
Qual o nome da madama, por favor?
Eu disse:
Julieta!
E ele se mostrou confuso. Ri para ele e para mim mesma.
É isso mesmo: ela se chama Julieta e eu também!
Ele acatou, talvez incrédulo, mas falou com alguém no interfone, e depois me abriu o portãozinho e foi indicando o lugar do elevador.
Dentro do elevador aquilo me foi martelando: Julieta e Julieta. Que engraçado. Que coincidência. E era bonito, não era? Mas onde estaria Romeu a essa altura? Onde estariam aquelas famílias? Depois fiquei pensando em Shakespeare se contorcendo no túmulo com aquela versão apócrifa Você abriu a porta do apartamento no justo instante em que eu saía do elevador, bem no meio da risada que aquele acúmulo de pensamentos e imagens tinha me produzido. Eu a vi e recolhi os sons do riso. E fiquei desalmada e só. Porque você estava mais bonita que o bonito, ali, me esperando, me abraçando de leve, me dando um beijo em cada face e depois me convidando, gentil, perfumada, educada, para entrar, para sentar, para conversar um pouquinho, para tomar um gole de chá, para comer disso e daquilo... E daí... você se lembra por um acaso do momento exato em que a gente deu aquele passo e caiu no desvão, na cilada, nos braços de uma e da outra?
Ju, juro que não lembro de nada! Só do fato se consumando, de eu ir me consumindo, absorvendo, observando, repetindo, inventando. E depois de eu ter me levantado de repente, depois de uma meia hora de sono. E de ter entrado no banheiro e de ter me vestido sem coragem de olhar no espelho. E de ter saído sem dizer tchau, sem lhe avisar que eu ia estar de volta dentro de meia hora...
Saí mesmo. Fui para minha casa. Mas lá eu não estava cabendo. Então entrei no carro e fiquei dirigindo por um tempo. Até que parei na doutor Arnaldo, presa pela variedade de cores das bancas de flores. Parei lá e o moço já veio chegando, me perguntando o que eu queria, avisando que tudo estava barato. Eu nem tinha descido do carro. Liguei o motor de novo e voltei para sua casa. O zelador não estava. Já era noite. E o porteiro, diferente, repetiu a mesma cena. Subi chorando. Julieta e Julieta. Parecia o meu sobrenome. Parecia um jogo de espelhos. Eu estava adorando. Você abriu de novo a porta a tempo de colher da minha cara litro e meio das minhas lágrimas. E eu deitei no seu colo e você cantou para mim qualquer coisa e eu fiquei presa naquele movimento, no carinho daquilo. E assim me tornei sua amante.
E agora, minha Ju, tudo parece gigante! Minha filha já mora com um cara e se mudou para São José dos Campos. E seu Kiko parece perdido, sem saber se faz medicina ou se arrisca na vida como professor de capoeira... Seu marido, querida, casou-se de novo e aos 47 tem um filho de cinco com uma moça que acaba de completar 23 anos. Eu vivo feliz com a nossa vida e acho uma delícia que você tenha a sua casa, tenha o seu domínio, enquanto tenho cá também meu cantinho. E acho do mais puro deleite quando você me liga ou quando vem sem aviso. E a gente de novo toma um chá bem quente, se aninha. E desse ninho nascem ovos de todos os tamanhos: de pássaros, de serpentes, de patos, todos muitos coloridos, prenhes que estamos dos bichos os mais diferentes possíveis... Ju, tenho que repetir meu mantra: te amo, te amo, te amo.
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