Descrição do produto
Garotas iradas
Vange Leonel
Edições GLS
152 páginas
14x21 cm
"Muito interessante, inteligente e divertido."
Daniele Q. C., Belém-PA?
"Vange Leonel é sensacional. Eu me identifico mais com as autoras brasileiras, parece uma coisa mais nossa."
Dulcinéia S. C., Varginha-MG?
"As colunas escolhidas para o livro são as melhores, pena a leitura acabar tão rápido."
Graziela S. S., Itapevi-SP?
"Achei legal, tem várias coisas que eu não sabia."
Carmen S. G., Jandira-SP?
Gostei muito, uma leitura esclarecedora e inteligente, eu diria até formadora de opinião.
Viviani L., São Paulo-SP?
"É muito bom saber que o público gay, principalmente nós, lésbicas, temos alternativas de consumo no mercado literário. O livro Grrrls, de Vange Leonel, é excelente por colocar abaixo mitos, tabus e preconceitos tanto em relação à questão homo quanto à questão do lesbianismo em si."
Morgana R. C., Campos dos Goytacazes-RJ?
"Divertido, inteligente e informativo! Uma linguagem bastante ágil e direta."
Angela O., São Paulo-SP?
Fernando Bonassi na apresentação
É muito divertido e interessante para mim que a Vange tenha me chamado para apresentar seu livro. Primeiro porque, além de sexualmente livre, é originariamente mulher. A meu ver, a grande conquista política e cultural do já passado século XX foi justamente o feminismo. Tudo o mais se perdeu ou se diluiu em debates ideológicos, mas a discussão que importou, isto é, a assunção do corpo no processo civilizatório, passou e passa pelas lutas que se originaram no feminismo.
Mesmo nós, homens heterossexuais, descobrirmos nosso corpo, no mais das vezes igualmente oprimido (na escola, no exército, no trabalho) ? partir deste debate. Assim como toda a produção gerada pela chamada "cultura gay". Aliás, espero pelo um dia em que não precisaremos mais colocar esses qualificativos de categoria nas nossas conversas. Afinal, se sou dono do meu corpo, deveria poder transitar com ele em diversas modalidades a meu bel prazer, certo?
Mas, no que diz respeito a esse livro, estou chovendo no molhado. Vange, como poucas e poucos, faz da sexualidade (de todos nós) expressão cultural, sabendo que seu conhecimento passa por investigação e experiência, mas também é arte: é música, é teatro, é dança... é uma delícia!
O resto... bom, o resto fica pra masturbação dos caretas.
Trecho
Um dos argumentos mais usados por gays e lésbicas que não querem sair do armário é a frase: o que eu faço entre as quatro paredes do meu quarto não é da conta de ninguém.
Ok., eu concordo. Eu mesma não saio por aí falando que prefiro 69, fist fucking ou strip-tease para me excitar durante as preliminares. Mas mesmo que eu não revele meus segredos de alcova, nada impede que eu deixe claro que gosto de namorar garotas.
O que acontece é que algumas pessoas ainda encaram o relacionamento homo como algo pura e exclusivamente da alçada sexual, esquecendo-se que existe um mundo fora das quatro paredes do seu próprio quarto. Pensando desta maneira, essas pessoas vivem plenamente sua vida homossexual dentro de casa, dentro dos bares gays e do gueto e, como sua vida sexual não interessa a mais ninguém, não vêem necessidade de tornar visíveis sua orientação sexual e sua expressão homoerótica e afetiva.
O que muita gente se esquece quando usa esse argumento é que gays e lésbicas são, além de homossexuais, seres sociais. Insistindo na tese de que a homossexualidade é uma questão de foro íntimo, reforça-se mais um preconceito: o de que gays e lésbicas só pensam em sexo, cama, orgasmos e suspiros. Ou seja, coloca-se a transa homossexual como algo que não sai do quarto e que não vai para a sala de visitas.
Pois saibam que essa é mais uma das manobras silenciosamente orquestradas pelo hetero-patriarcado para privar gays e lésbicas de um poder extraordinário: o poder de expressar socialmente o seu amor. Hoje em dia a sociedade reserva áreas específicas para que gays e lésbicas possam expressar publicamente seu afeto bares onde podem se encontrar para exercitar seu poder de sedução. Isso não soa um pouco como um apartheid? Não se parece também como nos Estados Unidos dos anos de 1950, quando os negros tinham que se sentar na parte de trás dos ônibus para não se misturar com a população branca?
No entanto a maioria dos gays e lésbicas do nosso país ainda prefere viver segregada. A facilidade que o gay tem para esconder a orientação sexual da família, no ambiente de trabalho e no espaço público, faz com que exista uma falsa impressão de que é plenamente acolhido pela sociedade quando de fato esse abrigo é bem meia-boca: tudo bem, pode ser lésbica, mas não beije sua namorada num shopping center...
Você pode achar que passa sua vida numa boa sem beijar sua queridona num shopping, mas isso é sim segregação. A ocupação do espaço público é importantíssima para qualquer pessoa. É em público que encontramos os outros cidadãos que compõem nossa sociedade e, se queremos fazer qualquer coisa na vida que não seja entre as quatro paredes do nosso quarto, é no espaço público que iremos trabalhar para melhorar, entreter e transformar o mundo ? nossa volta.
Por isso é necessário que os homossexuais ocupem o espaço público de maneira honesta e franca porque se deixarmos todo nosso poder de sedução trancados no armário, além de parecermos tolos, mal amados e assexuados, estaremos privando a sociedade da nossa valiosa contribuição como cidadãos. Um gay que atua publicamente sem poder manifestar seu homoerotismo estará atuando pela metade, pois falar em alto e bom som que se ama e a quem se ama é um dos mais poderosos gritos de guerra jamais inventados. O hetero-patriarcado é mestre na glorificação de suas expressões amorosas: do romance entre César e Cleópatra até a incrível paixão de Rose e Jack no filme Titanic, a expressão amorosa heterossexual sempre serviu como mola propulsora, arma e estímulo para heróis que conquistaram impérios e transformaram o mundo para sempre.
Ora, se a expressão amorosa tem tanto poder assim, porque vamos deixar de expressar nosso amor publicamente? Não estaria mais que na hora de tirar o amor homossexual de dentro das quatro paredes do quarto e apresentá-lo finalmente ? sala de visitas? Quem leva a melhor se continuarmos dentro do armário? Com certeza aqueles que têm problemas quando vêem dois homens se beijando. Quem fica do lado de dentro só ganha mesmo a companhia nada agradável das traças e dos cabides.
Pois então para aquelas que dizem o que faço entre as quatro paredes do meu quarto não é da conta de ninguém, eu respondo que certamente não é da minha conta se você prefere dedos ou dildos. Mas que isso não a impeça de sair de mãos dadas com sua namorada num shopping center e que isso não seja argumento para você deixar de ocupar o espaço público com suas expressões homo-afetivas. Não esqueça nunca que a manifestação de seu amor é uma das coisas mais divinas e poderosas que você pode usar. Não a exercite somente no quarto, em casa, nos bares e no gueto. Não deixe sua expressão amorosa morrer na praia, no trabalho ou na sala de jantar da sua família. Expresse seu homoerotismo e seja feliz. O mundo agradece.
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