Babyji

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Abha Dawesar
Sá Editora
334 páginas

A descoberta do sexo e das complicações de relacionamento por uma garota indiana de apenas 16 anos, atrevida e sem medo de experiências.

Babyji

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Abha Dawesar
Sá Editora
334 páginas
16x23 cm

"Acabei de ler Babyji, acho que é um livro super bem escrito, instigante, informativo, cultural acima de tudo. A primeira boa impressão que eu tive foi a respeito do ritmo da história, logo no começo ela conhece a Índia e a empregada e a história vai acontecendo sem enrolação, sabe? Foi sem dúvida uma ótima leitura, um prazer. Amei a personagem Anamika, seus casos e descobertas. Enfim, é um livro gostoso!"
Ana Rita, Ribeirão Preto / SP

Nova Délhi, Índia. Anamika, chamada por todos de Babyji, tem 16 anos, mora num bairro de classe média alta e na escola é a melhor aluna de física quântica. Super inteligente e atirada, a moça resolve que quer saber sobre sexo, esgueirando-se para a garagem para ler o Kama Sutra. Depois, prefere partir para a prática.
Nessa delícia de romance irônico, com observações argutas sobre a sociedade de castas, a hipocrisia da repressão sexual temperada com muitos amores proibidos, Babyji não se detém: seduz uma elegante divorciada, a empregada doméstica da família e a colega de classe mais cobiçada pelos rapazes. Magnética, ela atrai a atenção de homens e mulheres, mas é a elas que se volta para o amor.
Romance iniciático com fortes acentos eróticos e subversivos, Babyji é o livro de estreia no Brasil da romancista indiana Abha Dawesar, escritora saudada como uma voz nova e inteligente pela crítica internacional e já publicada em mais de dez países.
Recebeu o prêmio Lambda Literary Award de ficção lésbica em 2005 e o Stonewall Book Award de ficção em 2006.

Trecho

Capítulo I
DESABOTOANDO A SENHORA X

Délhi é uma cidade onde as coisas acontecem às escondidas. Uma cidade onde o horizonte está coberto de partículas de poluição e os dias são quentes. Uma cidade sem nenhum amor, mas carregada de paixão. Você me pergunta como é possível paixão sem amor? Do mesmo modo que é possível haver sexo sem vida noturna. Délhi se agita lenta, secretamente. O que emerge é a urgência.
Na Délhi em que cresci, acontecia de tudo. Mulheres casadas apaixonavam-se por garotas púberes, garotos subiam calhas para transar com as esposas dos vizinhos e as alunas davam para seus professores de ciências no laboratório. Mas ninguém jamais falava sobre isso.
Eu era inocente, guiada apenas pela ambição de fazer algo grandioso por meu país, algo que envolvesse Física. Meu conhecimento dos fatos da vida era inteiramente baseado em livros, e dos castos. Li os clássicos do século XIX de George Eliot e Emily Bront, mas eles nunca entravam em detalhes. Para remediar isso decidi ler o Kama Sutra, de Vatsyayana. Tive de fazer isso em pé,
na garagem da lambreta, que tinha virado um depósito. Eu escapava para lá com uma lanterna depois que meus pais tinham ido dormir. O Kama Sutra de que me alimentei parecia-me completamente de outro mundo, estranho e absurdo. Depois de tê-lo lido, no entanto, coisas mágicas começaram a acontecer. Para ser específica, conheci uma mulher. Conhecemo-nos na minha escola.
Ela tinha vindo participar da reunião de pais e alunos. Eu era a Chefe dos Representantes de Classe.
Onde estão os professores da primeira série?, ela perguntou.
No Bloco Pushkin, moça, respondi.
Eu era impressionável demais naquela idade. Estivera lendo A Cidadela, de A. J. Cronin, no qual a principal personagem feminina era descrita como particularmente bela. Imaginei por um instante que ela era aquela bela mulher.
Eu a levo até lá, senhora, ofereci-me.
Qual o seu nome?
Anamika, respondi.
Gosto de sua gravata, disse ela.
Oh, puxei e manuseei meu número de poliéster enquanto caminhávamos, repentinamente consciente da figura ridícula que passava naquele uniforme escolar de meias e mangas de blusa vermelhas. Como a maioria das escolas, a minha tinha um código rígido quanto ao uniforme. As moças usavam saias de pregas cinzentas e os rapazes, até os catorze anos, vestiam calças curtas. Todo mundo portava uma gravata de listras vermelhas e prata, exceto as representantes de classe. A nossa era prata e azul.
Eu detestava o tradicionalismo de Délhi e suas normas antediluvianas que exigiam que você se dirigisse a alguém mais velho como Titio ou Titia e a alguém mais jovem com diminutivos. Isso impossibilitava uma ligação séria com as pessoas mais velhas que você. Eu não tinha coragem de perguntar a essa mulher seu nome. Ela era de outra geração; esse tipo de coisa não se fazia.
Depois que a deixei na frente do Bloco Pushkin, senti meu coração transbordar com um tipo de conhecimento que não consegui identificar de imediato. Eu imaginara muitas vezes como Newton deve ter se sentido quando a maçã caiu sobre sua cabeça e o peso das forças gravitacionais surgiu em sua mente. Eu acho que me senti desse jeito, que uma grande descoberta acabara de ser feita e tudo o que eu tinha de fazer era escrever sua fórmula. Desejava que um simples objeto, como uma maçã, estivesse envolvido, algo tangível que eu pudesse contemplar e segurar, cheirar e morder.
Tive vontade de chamá-la de algo. De uma coisa que ninguém mais era chamado. Uma palavra que não fosse um nome e que ainda assim fosse proporcional à imensidão da revelação desabrochando dentro de mim. Índia foi a primeira coisa que escapou silenciosamente de meus lábios.
Perambulei por essa parte da área da escola de maneira que pudesse me encontrar com ela na saída. Chegou um momento em que ela apareceu pelas mesmas portas que a tragaram anteriormente. Fingi estar olhando para outro lugar. Ela veio por trás de mim e tocou-me no ombro.
Você gosta desta escola? Estou pensando em colocar meu filho aqui, disse ela.
Sim. Aqui incentivam as atividades extracurriculares, eles são motivadores. Nós temos equitação.
Você sabe cavalgar?
Sim. Estudo aqui desde a segunda série.
Sempre quis montar a cavalo. Mas com tantas atividades extracurriculares, você ainda consegue ir bem nas provas?, ela perguntou.
Provavelmente vou me sair bem. Eu adoro estudar.
Você vai se sair bem de qualquer jeito. Você é obviamente excepcional. Ela olhou para o distintivo de representante de alunos sobre o bolso esquerdo e sorriu.
Dei de ombros. Fiquei encabulada, mas não quis demonstrar.
Tenho de ir agora. Dê uma passadinha lá em casa se quiser bater um papo. Vá de bicicleta.
Como sabe que eu tenho uma bicicleta?
Já vi você andar por aí de bicicleta. Eu moro no B-63. Venha tomar um café gelado no sábado de manhã.
Tudo bem.
Isso é amanhã, disse ela, apertando minha mão, e partiu.
Eu não fui capaz de situá-la. Os indianos, inclusive eu, temos necessidade de situar imediatamente todo mundo que encontramos. Somos uma nação de taxonomistas. Deve estar em nossos genes por causa do sistema de castas. Há categorias para tudo cultos ou não, carro importado ou não, brâmane ou banya, ou seja o que for, falante de língua inglesa ou não, comedor de carne ou não, se vegetariano, então comedor de ovos ou radical, e, nesse caso, se rígido demais para comer sobremesas ocidentais com ovos ou não. Tudo isso, no caso de mulheres, ajuda a prever se elas se perderão. No caso de homens, se eles se comportarão mal com mulheres caso tenham a mínima chance, se aceitarão propina, apoiarão seus pais na velhice, e por aí afora.
O sistema funciona. É uma ciência milenar, já chegou ao nível das belas artes. Eu frequentemente escarneci dele, mas tive de pôr a mão na consciência e admitir que agia dentro dele. Eu classificaria naturalmente as pessoas à primeira vista sem nem mesmo perceber. O amor acontece nas bordas. Ele acontece quando não se consegue se situar alguém; assim é com o ódio. Índia era um enigma. E, correspondentemente, prenhe de possibilidades, rica de sentidos.
Aquela foi como a maioria das outras noites de sexta-feira. Fui com os meus pais jantar na casa de alguém. As mulheres sentaram-se todas em uma parte da sala e os homens, em outra. Graças à minha idade, pude circular entre os dois grupos. Não havia outras crianças. Meus pais me levavam com frequência a essas reuniões sociais. Com o passar dos anos eu já me acostumara à companhia de pessoas mais velhas do que eu.
Você conhece uma boa empregada? A minha vai sair por um mês, disse a senhora A.
A minha está me dando problemas, a senhora B fez coro. Empregados hoje em dia, vou te falar, acrescentou a senhora C.
Caminhei até o outro lado em que os homens estavam discutindo o jogo de críquete entre Índia e Paquistão. Não tenho nada contra esportes, mas homens com a cintura se alargando e com válvulas artificiais no coração discutindo um inédito jogo de cinco dias não eram a melhor das companhias. Voltei ao grupo das mulheres e decidi me divertir. Todas elas estavam usando sári, o amplo diafragma dobrado sobre a cintura, suas costas disformes bem visíveis. Visualizei-as em suas blusinhas apertadas.
Uma das razões para a acuidade dos sistemas de classificação é que seus critérios são sempre intuídos imediatamente e podem ser modelados para se adaptar à ocasião. Cada situação gera sua própria classificação. Por exemplo, a questão mais óbvia a se perguntar quando você desabotoa a blusa de uma mulher indiana é se ela depila as axilas. Há outras perguntas menos interessantes, como que tipo de sutiã ela está usando. Essa segunda pergunta não é intrinsecamente desinteressante, mas naquela época só havia uma empresa que fazia roupas íntimas de qualidade para mulheres, e só cinco modelos.
Eu consegui classificar a maioria das mulheres de cara. Uma mulher vamos chamá-la de senhora X foi difícil de situar. Eu desabotoei sua blusa várias vezes mentalmente e tentei imaginar os dois cenários depilada ou não. Cada qual parecia provável. Observei-a mais de perto em busca de mais dicas.
Se uma mulher não depila as axilas é porque ou é terrivelmente antiquada ou tremendalmente pós-moderna. Não consegui saber se a senhora X era uma feminista radical. Tinha certeza de que ela não era antiquada. Se uma mulher não depila as axilas ela pode ser muito avançada ou simplesmente possuir mentalidade de classe média. Se eu fosse capaz de chegar a seu tipo eu saberia que partes do corpo ela depilava. Ou se eu soubesse que partes do corpo ela depilava eu poderia tipificá-la.
A dona da casa chamou para o jantar enquanto eu desabotoava a senhora X. Aproveitei a movimentação pela sala como uma oportunidade para dar início a uma conversa com ela. Em um minuto descobri que ela não lia, frequentava o salão de beleza para fazer o pé e não trabalhava. Perdi o interesse por ela. A investigação estava terminada. Ela de fato se depilava e era previsivelmente burguesa.
Fiquei ali pensando sobre Índia, mas a ideia de desabotoar a blusa dela encheu-me de tal desassossego que eu troquei minhas divagações pelas samosas em meu prato.

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