Descrição do produto
Fátima Mesquita
Editora Malagueta
166 páginas
12x17 cm
[Você tem a opção também de comprar este livro pela Livraria Cultura neste link]
"Escrito com verve"
Cadão Volpato no Guia de Livros da Folha de S.Paulo
"Casualmente terminei de ler os Amores cruzados enquanto esperava o famoso 'minutinho que já encontro o teu processo' nas Varas do Trabalho. Definitivamente o livro é delicioso e com um ritmo de suspense sobre o desfecho que não me deixava parar de ler."
Eduarda, Porto Alegre-RS
Sobre a autora
Fátima Mesquita é mineira de Belo Horizonte, mas passou a maior parte da sua vida adulta em São Paulo onde escreveu e produziu para jornal, rádio, TV, vídeo, evento e campanha política. Também trabalhou para o BBC World Service Trust e o UNICEF em Angola depois de passar uma temporada na Inglaterra. Hoje Fátima mora em Toronto, Canadá. Por lá ela escreveu e dirigiu um documentário para TV, traduziu websites, games e filmes para DVD, editou revista e jornal, trabalhou para o Discovery Channel e ainda na equipe do Brazil Film Fest. Em 2006, a escritora recebeu uma bolsa do Toronto Arts Council para escrever Amores cruzados, que é o sétimo publicado pela autora que também escreve para o público infanto-juvenil. É autora de Julieta e Julieta (São Paulo, Ed.GLS, 1999), primeira obra brasileira a apresentar narrativas com temática lésbica e finais felizes.
Trechinho
Estacionei de qualquer jeito em qualquer canto. Acendi a luzinha de dentro do carro e peguei a caixa no colo. Letra prateada. Nada de cartão. Rasguei o papel e vi lá dentro uma caixinha de música antiga e, na minha ultra-rápida inspeção, mais nada. Coloquei a tralha toda de volta sobre o tapetinho do carro e fui-me embora, com medo de ficar parada de bobeira assim em um domingão em São Paulo.
Cheguei em casa e fui colocar aquilo em cima da minha escrivaninha. Primeiro, peguei o papel do embrulho todo e o inspecionei de uma ponta à outra porque com a Nara tudo era assim, o mais ordinário dos objetos podia conter alguma coisa importante, o dado secreto que deixaria Champolion decifrar, enfim, a pedra da Rosetta. Mas depois de varrer o papel umas cem vezes com o meu mais astuto olhar, eu o picotei em pedaços pequenos e o coloquei no fundo do lixo da cozinha, jogando por cima o resto de uma sopa que já embolorava na geladeira.
De volta ao escritório, fiz o mesmo com a caixa em si, de novo sem achar nada de enigmático por lá. E de novo rasgando o troço todo em mil mini pedaços e depois despejando aquela chuva de papelão picado no lixo, com direito agora a um pouco de arroz que, para ser sincera, nem estragado estava.
Daí fui, mais uma vez, para o meu cantinho de trabalho. Sobre o tampo da escrivaninha, havia esta caixinha de música prateada, usada, com evidentes sinais do avançado da idade, e tão charmosa quanto Michelle Pfeifer em Ligações Perigosas. Ao abrir, a caixinha retangular, via-se um espelho no lado de dentro da tampa e, na parte de baixo, outro espelhinho redondo, pequeno, que, me lembro bem! era o lugar onde uma minúscula bailarina ficava rodopiando sozinha ad infinutum.
Acho que uma das minhas tias tinha uma caixinha de música bem parecida com esta... Só que, nesta aqui, não havia bailarina alguma. Havia um cantinho para ela, ou talvez para se guardar joias, brinquinhos, coisas do gênero, talvez. Mas era isso: forro de veludo vermelho, espelhinho e mais nada lá dentro.
Fiquei encantada com o presente. Mas não dava conta de sacar se ele era uma pista para alguma coisa a mais ou se ele era só a alegria de presentear e ser presenteado. E foi aí que dei corda na traquitana e fiquei com o coração petrificado.